A cena site-specific: uma definição por Mike Pearson e McLucas

brith_gof_cusan_esgyrn_400
Brith Gof : Haearn – Imagem: .http://www.culturecolony.com/artlogs?p=2690

 

Mike Pearson é um artista e pesquisador de teatro físico e performance site-specific, autor de vários livros sobre o tema. Entre outras parcerias, fundou com Lis Hughes a Brith Golf em Aberystwyt (Reino Unido), em 1981 e que durou até 1997. Ele desenvolveu pesquisas com Michael Shanks sobre teatro e arqueologia, e com o teórico e artista visual, Cliff McLucas. A companhia trabalhava com criações híbridas, envolvendo música, cenografia, texto e ação física. Eles se concentravam especialmente em espaços encontrados, fora dos circuitos tradicionais de exibição artística. Continue lendo “A cena site-specific: uma definição por Mike Pearson e McLucas”

A poética corporal de Rasante

rasante
Imagem: Guto Muniz: http://www.focoincena.com.br/

(ra.san.te)

1. Que passa muito próximo do solo.

2. Diz-se de fortificação cujos muros são baixos.

3. Diz-se de tiro disparado mais ou menos rente ao solo.

4. Voo rasante (1).

[F.: rasar + -nte.]

Dicionário Aulete

 

Rasante me traz sensações e, ao mesmo tempo, elementos fecundos para a pesquisa de linguagem – de um teatro de imagens produzidas pelos corpos, de uma dança intensiva e da constituição de atmosferas. Tem a direção do ator, bailarino e coreógrafo Sérgio Penna e a participação dele e dos atores-bailarinos-criadores Gabriella Christófaro, Bernardo Gondim, Lourenço Marques e Grace Passô.

A cena é classificada como dança. Tudo bem, isso serve para os editais, para os projetos de circulação etc. Na verdade, é inclassificável, como afinal toda arte que pode produzir afecções em você. E que por sua beleza – sim, o belo como força de deslocamento – também vai muito além dos gêneros artísticos. Tem uma poiesis do corpo – e dos meios que o atravessam e o tangenciam. São bailarinos-atores ou atores-bailarinos – tanto faz: cabe aqui essa descrição de Eugênio Barba. Continue lendo “A poética corporal de Rasante”

Vazio e forma no ator compositor

heart-sutra

“Ó Sariputra, aqui a forma é o vazio e o vazio é a forma;/ tudo que tem forma é exatamente o vazio e tudo que é vazio é /exatamente a forma.”

Sutra do Coração da Grande Perfeição da Sabedoria (Índia, séc.1D.C.) Versão do Mestre Zen Ryotan Tokuda.

Eu andava fascinado com duas ideias que eram, obsessivamente, buscadas e exercitadas: os espaços e os vazios. Não só nas minhas oficinas de teatro, mas também em mim mesmo eu criava um laboratório para realizar experimentações.  Observava, além disso, os movimentos das artes marciais e as brincadeiras corporais das crianças (de repente, um mergulho rápido num espaço vazio que se abria…). Um dia, Jória Lima, que havia participado como consultora de dramaturgia em Fabulário me disse assim: – Vejo que você está buscando uma criação com uma outra coisa que não é comum na maioria dos exercícios de atuação teatral. Posso chamar isso de uma prática de espaços?

Foi então que eu entendi o que procurava. Algo que estava cada vez mais distante das modalidades do teatro de personagens dramáticas. Percebi também que eu não trabalhava mais com interpretação, mas sim utilizava outra coisa: a noção de composição – como já me alertara Gil Amâncio, músico e artista cênico, parceiro de muitas inquietações. São estudos compositivos, dizia ele. Outra pessoa notou que eu me aproximava da dança. Mas, então, teatro e dança têm realmente que vir separados? Interessei-me pela Performance, numa interface com o Teatro Físico.

Um dos exercícios básicos de composição,  que então passei a desenvolver, intitula-se Vazio e Forma. O nome vem do Budismo Zen, de uma citação do Sutra do Coração da Grande Perfeição da Sabedoria (Índia, séc.1 D.C.). O sutra, também chamado de Prajna Paramita, relaciona forma e vacuidade e sua mútua interdependência.  Continue lendo “Vazio e forma no ator compositor”

Nigel Charnock (1960-2012): uma entrevista sobre teatro físico

 

“Eu e Lloyd começamos o DV8 porque a gente não entendia a dança. Então, nós éramos bailarinos treinados e a gente ia a espetáculos de dança e nos sentíamos completamente por fora.”

Fiz essa entrevista com Nigel Charnock em 2005, um dos fundadores do DV8 Physical Theatre. Tiago Gambogi fez a tradução ao vivo, realizando também algumas intervenções. Nigel estava em Belo Horizonte para ensaios e apresentação de Made in Brasil, espetáculo dirigido por ele e com atuações de Tiago e Margaret Swallow. Na ocasião, eu preparava minha dissertação sobre improvisação e teatro físico. Nigel nos deixou no dia 02 de Agosto deste ano. Um artista ainda jovem, de muito talento e energia criativa. Um achado, para mim, é o modo como Nigel relata a questão do corpo na dança moderna, no teatro dramático e no teatro físico. Continue lendo “Nigel Charnock (1960-2012): uma entrevista sobre teatro físico”

Intervenção urbana: Olho da Rua

 

Territórios em fuga

Um homem se atira, de repente, aos pés de um transeunte no meio da calçada, para  recompor-se rapidamente em seguida. E novamente, a cada avanço do passante, joga-se numa sucessão de estranhas quedas e recuperações. Enquanto isso, da porta de uma loja de roupas, outro homem  se lança para o meio da calçada. O ato de ir ao chão é uma espécie de leitmotiv (motivo condutor) da intervenção urbana Olho da Rua. Outras ações ocorrem, num diálogo com o ambiente e os fluxos que o constituem. São territórios que se formam e logo se põem a fugir. Pequenas narrativas que explodem e se fragmentam. Frestas que se abrem no cotidiano da cidade.

A expressão “olho da rua” tem o sentido dos “olhares da rua”,  das multiplicidades e rizomas e, igualmente, o de “ser atirado na rua”. A pesquisa continua buscando extrair também do cotidiano da cidade as  imagens e sonoridades que possam ser incorporadas. É assim que aparecem outros gestos e posturas, lembrando situações de constrangimento vividos preferencialmente por pobres e negros, quando investigados pela polícia. Outro exemplo vem dos sons vocais produzidos pelos trabalhadores da limpeza urbana, quando correm e seguem aos gritos os caminhões de lixo.   Continue lendo “Intervenção urbana: Olho da Rua”

Os diálogos físicos: estratégias para compor com o outro (01)

Farm in The Cave – Theatre Studio

 

Num artigo anterior abordei a natureza dos diálogos físicos. Apresentei alguns de seus traços principais e os campos nos quais se inscrevem: o teatro pós-dramático, o teatro performativo, a utilização de procedimentos working in progress e, mais especificamente, o teatro físico. Falei de algumas fontes de inspiração e pesquisa (os movimentos de crianças), bem como de seu caráter de composição no instante. Aqui, pretendo expor algumas estratégias para improvisar/compor com outro, desenvolvidas por Miranda Tufnell, coreógrafa, bailarina e performadora britânica (veja em Referências). As proposições não se limitam à dança, pelo contrário. Estamos no campo de uma cena expandida, na qual as fronteiras entre as artes encontram-se borradas.  Continue lendo “Os diálogos físicos: estratégias para compor com o outro (01)”

Os diálogos físicos: um exercício em improvisação e composição

‘Extraordinary’ by f.a.b. – The Detonators Photography by Toby Farrow www.tobyfarrowphotography.com

Fisicalidade

Os diálogos físicos poderiam ser também chamados de diálogos corporais. Chamo de “físicos” porque há toda uma ênfase na fisicalidade das trocas, dos contatos e contágios estabelecidos entre os participantes desses “diálogos”. O termo ainda coloca-nos diante – e dentro – daquilo que está emergindo no nosso espaço de atuação, envolvendo a qualidade de nossa atenção, nossos impulsos e relacionamento com o outro, o espaço e o tempo.

Os diálogos físicos colocam toda sua carga naquilo que Lúcia Romano, na obra dedicada ao Teatro Físico, chama de corpo manifesto e materialidade cênica. Trata-se também de um teatro de fluxos pulsionais, para utilizar um termo de Patrice Pavis. Não sendo a mesma coisa, me inspiro na ideia de uma “arte de não interpretar como poesia corpórea do ator”, conforme desenvolvido por Renato Ferracini, no livro homônimo. Continue lendo “Os diálogos físicos: um exercício em improvisação e composição”

A composição cênica e o ritornelo

Imagem: adamned.art

Um mapa para o ritornelo

Renato Cohen, no seu luminoso livro Working in progress na cena contemporânea, registra o que ele chama de “característica ontológica” desse procedimento: “processualidade pelo uso de trama de leitmotiv, rastros de passagem, vicissitudes – e a especificidade dessa operação criativa – hibridização, superposição de conteúdos”. Desses elementos, imprescindíveis, destacamos nesta postagem o leitmotiv, esse motivo que retorna, como traço essencial para a composição cênica.

O campo working in progress, segundo Cohen, vai “desde manifestações transitórias (cenas não configuradas, laboratórios, situações cotidianas), contextos ulteriores ao contexto artístico (‘cena da vida’, ‘cena da mídia’), até expressões híbridas, fronteiras (performances, manifestos, intervenções) e, finalmente, a cena teatral contemporânea.”

De posse desse mapa, podemos dizer como procedemos com o leitmotiv em termos de composição cênica. Gilles Deleuze e Félix Guattari (Mil Platôs, vol. 4) dispõem uma ferramenta essencial para pensar criativamente com esse motivo em reiteração diferida: o ritornelo.

Do ritornelo

Deleuze e Guattari (1997) apresentam um dos conceitos mais belos de sua filosofia: o ritornelo. De modo simples e de origem musical, um refrão, algo que se repete – uma periodização. Ou traçado de um território. Os filósofos o definem:

 “O ritornelo vai em direção ao agenciamento territorial, ali se instala ou dali sai. Num sentido genérico, chama-se ritornelo todo conjunto de matérias de expressão que traça um território, e que se desenvolve em motivos territoriais, em paisagens territoriais (há ritornelos motrizes, gestuais, ópticos etc.). Num sentido restrito, fala-se de ritornelo quando ao agenciamento é sonoro ou dominado pelo som – mas por que esse aparente privilégio?”

E, em seguida, apresentam três situações de ritornelo:  Continue lendo “A composição cênica e o ritornelo”