Vaga carne, de Grace Passô

Imagem: divulgação

 

As luzes se apagam e escutamos, no escuro, a gravação da voz de uma mulher. Começa a cena de Vaga Carne, com Grace Passô. Que logo aparecerá sob um foco de luz no rosto, com ela de óculos escuros. Depois veremos uma bateria musical ao lado, num palco praticamente nu, apenas com as rotundas em volta. A plateia é configurada na forma de esporão, com a relação frontal, uma à esquerda e o outra à direita. Estamos bem próximos da atriz, aliás, dentro do palco do teatro à italiana.

A voz fala de um ser que descreve as coisas e das coisas e outros seres que invade, transita e habita por um tempo. Quem invade? Seria um vírus? Um algo sem nome. Um efeito da linguagem – o inominável, para lembrar Beckett. que vai nomeando as sensações, passando de uma para outra numa velocidade entre o demorar-se um pouco e o saltar logo  adiante. De operar cortes e de dobrar/desdobrar mundos internos, superfícies e percepções de estados de coisas.

Logo em seguida, esse inominável da linguagem irá invadir e descrever a carne de uma mulher. Daí para diante seguiremos juntos, artista, espectadores e mundos visitados, arrastados por  uma sinfonia agônica e minimalista de voz e corpo, por quase 50 minutos. Um tempo que não vemos passar.  Digo que é um dos trabalhos mais instigantes de Grace Passô – em que vejo uma travessia. Dele falo em três lances breves: o do dispositivo cênico, o da técnica/poética ao modo de uma travessia e o do acontecimento e sua política.

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Danças do Abismo

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Imagem que faz parte do vídeo exibido (Marcelo Gabriel/Arthur B. Senra).

Assistir a uma cena de Marcelo Gabriel é sempre uma experiência singular – quase um privilégio. Primeiramente porque o artista somente se apresenta uma vez ao ano na própria cidade em que reside, Belo Horizonte (MG). Depois – e o mais importante – porque estamos diante e junto de uma poética do corpo que vem, ao longo dos anos, adentrando nos próprios abismos.

O título Danças do Abismo 2, então, não poderia ser melhor para expressar o que se seguirá. Aqui nos deparamos com um trabalho despojado, tanto em relação ao figurino, quanto à cenografia, no qual Marcelo Gabriel experimenta o limiar que perpassa morte e loucura.  Continue lendo “Danças do Abismo”

Domingo, com Cida Falabella

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Imagem: Jornal O Tempo.

Domingo, de Cida Falabella, ocorre na casa da atriz/performadora, no Bairro Serrano, em Belo Horizonte.  Porém, pelo menos para mim, a experiência já havia se iniciado antes.  Pois uma coisa é deslocar-se em direção a um espaço destinado às artes, outra é ir ao espaço encontrado. No caso, aquele em que uma pessoa habita. Principalmente porque a casa – a morada – não foi esvaziada da ocupação cotidiana, e então transformada pela ocupação artística. Pelas informações anteriores, sabia que adentraria no espaço real de uma vida. Mas o que isso significa?

A cena se inicia com os convidados – pois esse tipo de cena é antes de tudo um convite – dispostos no jardim e quintal da casa, quando a atriz/performadora está de pé, próxima à parede do fundo, num gesto de entrega.  E ali, daquele lugar, vocalizando um texto poético e introdutório, ela abre o encontro.  Continue lendo “Domingo, com Cida Falabella”

A cena site-specific: uma definição por Mike Pearson e McLucas

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Brith Gof : Haearn – Imagem: .http://www.culturecolony.com/artlogs?p=2690

 

Mike Pearson é um artista e pesquisador de teatro físico e performance site-specific, autor de vários livros sobre o tema. Entre outras parcerias, fundou com Lis Hughes a Brith Golf em Aberystwyt (Reino Unido), em 1981 e que durou até 1997. Ele desenvolveu pesquisas com Michael Shanks sobre teatro e arqueologia, e com o teórico e artista visual, Cliff McLucas. A companhia trabalhava com criações híbridas, envolvendo música, cenografia, texto e ação física. Eles se concentravam especialmente em espaços encontrados, fora dos circuitos tradicionais de exibição artística. Continue lendo “A cena site-specific: uma definição por Mike Pearson e McLucas”

A poética corporal de Rasante

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Imagem: Guto Muniz: http://www.focoincena.com.br/

(ra.san.te)

1. Que passa muito próximo do solo.

2. Diz-se de fortificação cujos muros são baixos.

3. Diz-se de tiro disparado mais ou menos rente ao solo.

4. Voo rasante (1).

[F.: rasar + -nte.]

Dicionário Aulete

 

Rasante me traz sensações e, ao mesmo tempo, elementos fecundos para a pesquisa de linguagem – de um teatro de imagens produzidas pelos corpos, de uma dança intensiva e da constituição de atmosferas. Tem a direção do ator, bailarino e coreógrafo Sérgio Penna e a participação dele e dos atores-bailarinos-criadores Gabriella Christófaro, Bernardo Gondim, Lourenço Marques e Grace Passô.

A cena é classificada como dança. Tudo bem, isso serve para os editais, para os projetos de circulação etc. Na verdade, é inclassificável, como afinal toda arte que pode produzir afecções em você. E que por sua beleza – sim, o belo como força de deslocamento – também vai muito além dos gêneros artísticos. Tem uma poiesis do corpo – e dos meios que o atravessam e o tangenciam. São bailarinos-atores ou atores-bailarinos – tanto faz: cabe aqui essa descrição de Eugênio Barba. Continue lendo “A poética corporal de Rasante”

Vazio e forma no ator compositor

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“Ó Sariputra, aqui a forma é o vazio e o vazio é a forma;/ tudo que tem forma é exatamente o vazio e tudo que é vazio é /exatamente a forma.”

Sutra do Coração da Grande Perfeição da Sabedoria (Índia, séc.1D.C.) Versão do Mestre Zen Ryotan Tokuda.

Eu andava fascinado com duas ideias que eram, obsessivamente, buscadas e exercitadas: os espaços e os vazios. Não só nas minhas oficinas de teatro, mas também em mim mesmo eu criava um laboratório para realizar experimentações.  Observava, além disso, os movimentos das artes marciais e as brincadeiras corporais das crianças (de repente, um mergulho rápido num espaço vazio que se abria…). Um dia, Jória Lima, que havia participado como consultora de dramaturgia em Fabulário me disse assim: – Vejo que você está buscando uma criação com uma outra coisa que não é comum na maioria dos exercícios de atuação teatral. Posso chamar isso de uma prática de espaços?

Foi então que eu entendi o que procurava. Algo que estava cada vez mais distante das modalidades do teatro de personagens dramáticas. Percebi também que eu não trabalhava mais com interpretação, mas sim utilizava outra coisa: a noção de composição – como já me alertara Gil Amâncio, músico e artista cênico, parceiro de muitas inquietações. São estudos compositivos, dizia ele. Outra pessoa notou que eu me aproximava da dança. Mas, então, teatro e dança têm realmente que vir separados? Interessei-me pela Performance, numa interface com o Teatro Físico.

Um dos exercícios básicos de composição,  que então passei a desenvolver, intitula-se Vazio e Forma. O nome vem do Budismo Zen, de uma citação do Sutra do Coração da Grande Perfeição da Sabedoria (Índia, séc.1 D.C.). O sutra, também chamado de Prajna Paramita, relaciona forma e vacuidade e sua mútua interdependência.  Continue lendo “Vazio e forma no ator compositor”

Discurso do coração infartado

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Imagem:Ricardo Júnior – divulgação

Fui ver o solo de Silvana Stein, Discurso do coração infartado, que tem direção e dramaturgia de Ricardo Júnior e da própria atriz. Sai tocado pelo cuidado, pela técnica, pela sensibilidade e beleza deste trabalho.  Além disso, não é todo dia, também, que podemos estar ali, diante de uma artista que está em pleno processo de amadurecimento – o que, para nós, significa verter a flor com a maestria de artesão. E que se entrega de corpo e alma através de uma linguagem. Aliás, lembro mais do que nunca, aqui, de Maurice Blanchot: a linguagem é o lugar da atenção.

Entregar-se, é preciso dizer mais uma vez, não é estrebuchar-se. Dario Fo, o grande dramaturgo e diretor, diria de outro modo: um bom ator é como um bom nadador: não joga água fora da piscina! Silvana nada com maestria. Continue lendo “Discurso do coração infartado”

Nigel Charnock (1960-2012): uma entrevista sobre teatro físico

 

“Eu e Lloyd começamos o DV8 porque a gente não entendia a dança. Então, nós éramos bailarinos treinados e a gente ia a espetáculos de dança e nos sentíamos completamente por fora.”

Fiz essa entrevista com Nigel Charnock em 2005, um dos fundadores do DV8 Physical Theatre. Tiago Gambogi fez a tradução ao vivo, realizando também algumas intervenções. Nigel estava em Belo Horizonte para ensaios e apresentação de Made in Brasil, espetáculo dirigido por ele e com atuações de Tiago e Margaret Swallow. Na ocasião, eu preparava minha dissertação sobre improvisação e teatro físico. Nigel nos deixou no dia 02 de Agosto deste ano. Um artista ainda jovem, de muito talento e energia criativa. Um achado, para mim, é o modo como Nigel relata a questão do corpo na dança moderna, no teatro dramático e no teatro físico. Continue lendo “Nigel Charnock (1960-2012): uma entrevista sobre teatro físico”

Tempo e composição cênica – Parte I

Imagem: Tomàs Rotger: http://www.tomasrotger.com/

 

A experiência do tempo na performance

O tempo como experiência direta, como o sensível sobre o qual se opera a composição no instante. Pois foi na abordagem das velocidades e lentidões, da duração e da repetição, que encontrei as entradas para uma dramaturgia de estados (passagens para o plano das intensidades). Isso ocorreu ao mesmo tempo em que o desenvolvimento dramático deixou de se impor às criações corporais em flutuação e que emergiram das oficinas e cursos de improvisação. Um pensamento que se faz, igualmente, provocador da própria mise en scène.

E tão aliado quanto provocador dessa deflagração corpórea flutuante, o tempo tornou-se um fluxo operatório e expressivo – um caminho compositivo. Acrescente-se a esse espectro a questão do tempo como elemento que dialoga com o performador – como um co-atuante.

Começo, então, pela seguinte pergunta: qual a estruturação ontológica da experiência do tempo de uma determinada performace?  Continue lendo “Tempo e composição cênica — Parte I”

O teatro de estados (em Ricardo Bartís)

El Box, de Ricardo Bartís

Há um teatro de estados. Ou, melhor, teatros. E para trazer alguns elementos sobre o tema, selecionei trechos de dois textos. O primeiro é de Eduardo Pavlovsky, dramaturgo, ator, diretor, ensaísta e psicoterapeuta. O segundo é de Jorge Dubatti. São ensaístas argentinos que poderiam estar mais presentes em nossa cultura cênica. E também em nosso aporte teórico do teatro contemporâneo. Os autores abordam um campo de experimentação que não se pauta pela representação. E o fazem utilizando as ferramentas conceituais que buscam desmontar as concepções representacionais. O mesmo digo para os estudos da pesquisadora cubana, radicada no México, Ileana Diéguez, sobre as teatralidades liminares. Ela afirma, por exemplo, que é necessário “problematizar a representação como espaço de diferenças”. Nesse caso, Ileana diz que “a arte atual, particularmente o teatro, deveria considerar as reflexões traçadas pela teoria pós-estruturalista”.

No caso em tela, Eduardo Pavlovsky e Jorge Dubatti utilizam conceitos extraídos da filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Mas não acredite que se trata de uma  adequação de um pensamento criativo a outro. Pois a arte, sim, ela pensa por seus próprios meios, dirá Deleuze.

Os dois textos abordam o “teatro de estados” não de um modo geral, mas sim nos processos de singularização do teatro de Ricardo Bartís. Vamos aos nossos ensaístas:  Continue lendo “O teatro de estados (em Ricardo Bartís)”