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Performance sem testemunha?

Leandro Silva em experimento performativo

O problema

Seria possível uma performance sem pelo menos uma testemunha? Haveria algum a priori a impedir que alguém possa performar sozinho ou sozinha, no recôndito de seu mundo? Porém, não seria esse possível algo radicalmente distinto da realização artística singular que é a cena? Pois, a própria definição da natureza da ação performativa -e digamos por extensão, cênica – exigiria a presença compartilhada ao vivo, em tempo real e em um território.

Tal é o que nos lembraria Jorge Dubatti, ao falar do que ele chama de convívio cênico. Erika Fischer-Lichte, pro sua vez igualmente frisa essa característica, definindo a performance cênica como um processo de retroalimentação contínua (feedback) entre artistas e espectadores. Ou seja, estamos diante de uma arte que é por definição encontro. Algo que ocorre no entre de uma relação e não em. Portanto, isso não ocorrendo pelo menos diante de uma testemunha, haveria quer ser outra coisa que não uma arte da cena Faria sentido, nesse caso, atuar sem ao menos uma testemunha? Que encontro seria esse que se caracterizaria por um não encontro, se admitirmos a hipótese?

Penso – e proponho o exercício desse pensar em ato – que pode sim haver performance e, por extensão, cena, sem testemunhas físicas e presenciais. Sem que se negue, por princípio, as formulações de Jorge Dubatti e Erika Fisher-Lichte acima explicitadas. Que essa poética continue a ser de características presenciais – ao menos uma presença: a do ator/atriz. Daí que, justo nessa perspectiva, possa haver um encontro. E acrescento: que poderia inclusive fazer parte de um treino em criação.

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da conexão corpo/linguagem pelo princípio mágico-poético, na esteira de alexandre nodari

A performatividade como traço de uma poética – de um chamar das forças a si – como uma vez me sugeriu a pesquisadora cubana radicada no México, Ileana Diéguez – pode tanto conectar o ritual quanto a cena, sem que as duas instâncias sejam confundidas.

Pois que nos encontramos numa região em que a conexão corpo e linguagem se estabelece tanto no caso do ritual quanto no da cena – entendida esta de um modo expandido – com todas as variações possíveis entre algo que acontece diante dos outros, algo que acontece sem a presença desses outros e o que acontece, finalmente, no encontro com esses outros como espectadores. Ou seja, a cena como uma variação do ritual em grau e em natureza.

Numa próxima postagem, tratarei de examinar o possível de uma performance sem espectadores, que essa conexão corpo/linguagem em que um eu já é um outro pode abrir. Por agora, faço de um texto de Alexandre Nodari no Twitter um intercessor de exerimentação cênico-performativa. O que ele diz, num texto tão breve quanto luminoso:

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Domingo, com Cida Falabella

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Imagem: Jornal O Tempo.

Domingo, de Cida Falabella, ocorre na casa da atriz/performadora, no Bairro Serrano, em Belo Horizonte.  Porém, pelo menos para mim, a experiência já havia se iniciado antes.  Pois uma coisa é deslocar-se em direção a um espaço destinado às artes, outra é ir ao espaço encontrado. No caso, aquele em que uma pessoa habita. Principalmente porque a casa – a morada – não foi esvaziada da ocupação cotidiana, e então transformada pela ocupação artística. Pelas informações anteriores, sabia que adentraria no espaço real de uma vida. Mas o que isso significa?

A cena se inicia com os convidados – pois esse tipo de cena é antes de tudo um convite – dispostos no jardim e quintal da casa, quando a atriz/performadora está de pé, próxima à parede do fundo, num gesto de entrega.  E ali, daquele lugar, vocalizando um texto poético e introdutório, ela abre o encontro.