Nigel Charnock (1960-2012): uma entrevista sobre teatro físico

 

“Eu e Lloyd começamos o DV8 porque a gente não entendia a dança. Então, nós éramos bailarinos treinados e a gente ia a espetáculos de dança e nos sentíamos completamente por fora.”

Fiz essa entrevista com Nigel Charnock em 2005, um dos fundadores do DV8 Physical Theatre. Tiago Gambogi fez a tradução ao vivo, realizando também algumas intervenções. Nigel estava em Belo Horizonte para ensaios e apresentação de Made in Brasil, espetáculo dirigido por ele e com atuações de Tiago e Margaret Swallow. Na ocasião, eu preparava minha dissertação sobre improvisação e teatro físico. Nigel nos deixou no dia 02 de Agosto deste ano. Um artista ainda jovem, de muito talento e energia criativa. Um achado, para mim, é o modo como Nigel relata a questão do corpo na dança moderna, no teatro dramático e no teatro físico.

Você poderia falar sobe o surgimento do teatro físico, do encontro dele com Lloyd Newson e a criação do DV-8 Teatro Físico?

NIGEL- Eu e Lloyd começamos o DV8 porque a gente não entendia a dança. Então, nós éramos bailarinos treinados e a gente ia a espetáculos de dança e nos sentíamos completamente por fora, não entendia. E eu ainda sinto assim. Então, porque eu vinha de um “background” de teatro, de uma formação teatral. O teatro, como é normalmente baseado em situações, em situações reais da vida. Sim, você pode citar vários tipos diferentes de teatro: Teatro do Absurdo, Brecht… Porém, basicamente, em todos eles são sempre seres humanos reagindo no palco, se relacionando.

Na maioria das vezes existe uma relação entre o performer e a plateia, mas na maior parte do que se vê em dança eu não sinto que existe uma relação entre minha vida e eu ali como público, plateia e a vida dos bailarinos, ou o que eles estão tentando comunicar. Não existe esse dialogo. Não há, para mim, uma comunicação na linguagem da dança. É a representação de uma técnica aprendida anteriormente. O que eu posso apreciar, sim, mas da mesma maneira como eu posso apreciar uma pessoa que toca piano muito bem. Então, tecnicamente eu posso apreciar.

“Era nosso desejo criar um teatro que era baseado no corpo e não no texto ou na palavra. Nós não criamos um espetáculo de dança, mas sim um espetáculo de teatro, porém, com o corpo.”

Então, em grande parte, a dança está se escondendo atrás da forma, então é um pouco de exibicionismo, um pouco pra mostrar serviço. Mostrar truques. Eles mostram esses truques que eles aprenderam anteriormente. Na maioria das vezes é mais sobre forma e não sobre o conteúdo. E com o teatro, geralmente, é o oposto, é sobre o conteúdo e não sobre a forma. Então, nós criamos o DV8 para realizar movimentos que possuíssem significado para qualquer pessoa, que significasse algo para qualquer tipo de pessoa.

Era nosso desejo criar um teatro que era baseado no corpo e não no texto ou na palavra. Nós não criamos um espetáculo de dança, mas sim um espetáculo de teatro, porém, com o corpo. O mais importante é que comunicava algo com a platéia, que havia comunicação, enfim, entre a plateia e a obra. Antes de eu ir pra escola de teatro, treinar como ator, quando criança eu sempre me movia muito, era muito ativo com meu corpo. Eu era, então, muito ativo quando criança. E então, fui pra escola de teatro, tive aulas de interpretação, trabalhei com o texto. Depois da escola de teatro, houve esse retorno ao movimento através da escola de dança, depois da escola de teatro. Porém, o método da dança fez com que eu não quisesse mais dançar na verdade. Todo o treinamento, as aulas, a prática, tudo isso inibiu meu desejo de dançar. O treinamento destruiu a inspiração para eu dançar! Durante esse tempo todo eu dancei muito nas discotecas. Então, desde a época que eu saí da escola de dança, na minha vida houve uma série de acidentes no sentido de acasos, de coincidências que ocorreram no meu trabalho.

“É muito difícil transcender essa técnica para expressar algo.”

Eu não sinto que estou no mundo da dança. Eu trabalho com bailarinos e atores, mas eu me sinto como um alienígena dentro do mundo da dança, mesmo trabalhando com bailarinos e atores eu não me sinto parte. Porque os bailarinos são sempre preocupados muito com a técnica deles, e a técnica é um peso que eles carregam a vida toda, eles estão preocupados mais com a técnica, é a coisa mais importante e é como um pianista que está sempre só preocupado com a técnica de execução. É muito difícil transcender essa técnica para expressar algo. E com os atores acontece o contrário, eles estão constantemente dançando e atuando e sendo emocionais, mas possuem pouca disciplina e técnica. E eles não têm um trabalho muito forte com o corpo.

Qual a diferença entre trabalhar com atores e bailarinos?

NIGEL- Os bailarinos possuem uma memória de movimento, uma memória corporal e um conhecimento do corpo. Os atores também a possuem, mas em grau menor. Para eles, é mais sobre como fazer um personagem. Já com o bailarino esse conhecimento do corpo é mais, é físico, é o corpo inteiro atuando. Se você quer criar um espetáculo que não tem palavras e é inteiramente físico, isso facilita muito.

Trabalhar com pessoas que são muito físicas e possuem um conhecimento do corpo, é bom, é bom no sentido também de que é mais fácil. Se você está fazendo algo que é baseado em texto, que é extremamente sutil e têm diferentes nuances, então, é bom trabalhar com atores. O importante é achar um equilíbrio, o ideal seria encontrar pessoas que conseguem dançar e atuar.

– Então, um teatro físico?”

NIGEL-Sim, sim. Achar pessoas que conseguem se expressar fisicamente e não dependem das palavras pra se expressarem, os atores geralmente dependem das palavras pra se expressarem.

Tiago – Mas então como é que é isso, os bailarinos que você trabalha estão presos na técnica?

NIGEL: Ah, não, os que eu trabalho conseguem fazer essa transição entre o teatro e a dança. Mas que o legal é isso, achar bailarinos que tem a técnica, mas que se libertaram dela pra poder se expressar. Que precisam mais dela.

É um paradoxo que pra você estar livre de uma coisa que você a possui primeiro.  Então os bailarinos possuem a técnica e agora podem largar mão dela. É como o Jazz,  você precisa saber a melodia muito bem, pra você poder abandoná-la, voar, ficar livre dela. Muitos músicos e bailarinos são técnicos, muito bons técnicos, mas realmente eles não transcendem a técnica, de mo a criar algo mais. E isso é muito raro que aconteça, esse transcender a técnica e criar esse algo outro.

Quero retomar uma fala sua. Você disse que, no período da escola de teatro, você gostava de dançar nas discotecas e nas boates. No encontro no Galpão Cine-Horto, você falou disso também. Não será então ali, que o corpo se mostra pro outro, convida o outro enquanto dança?

TIAGO-Então é um corpo que se mostra. Conta isso de novo pra gente.

“Eu acho que tudo é pessoal, claro, porque todo mundo, todos nós somos pessoas e tudo é político também…”

Sim e que convida o outro fisicamente. Eu estou falando de um contesto cultural, como o homoerotismo que parece muito forte no começo do DV8.

NIGEL – Sim, porque eu e Loyd somos gays.

Pois é, mas isso é uma força pessoal ou política?

NIGEL – Eu acho que tudo é pessoal, claro, porque todo mundo, todos nós somos pessoas e tudo é político também, porque tudo é sobre poder, tudo que você fala ou que você usa, como as roupas que veste, o que você faz na sua vida, tudo é absolutamente político!

– Dando um salto para esse trabalho no Brasil, “Made in Brazil”, não há personagens, mas também não me parece ser como a abstração da dança… Isso é uma característica de seu trabalho, quer dizer, nesse momento você trabalha com a informação de que você tem dois artistas, que são um casal… É isso?

TIAGO– E você trabalha com personagens outras vezes?

NIGEL- Sim.

São contextos de vida, dos performers com os quais você trabalha na criação do texto, como ocorre, de certo modo, em Made in Brazil?

NIGEL– Sim. Sempre é esse é o caso, eu levo em consideração isso tudo, mas não é somente isso. Eu começo com minhas idéias, minhas visões, minha coreografia, sou eu. Na maioria das vezes eu coloco isso nas pessoas, eu falo: você faz isso, você fala isso, faz isso, eu marco tudo! Mas ao mesmo tempo eu estou absorvendo eles, aí depois, depois no final eu devolvo a eles, eles mesmos no, no espetáculo. Geralmente eles não sabem que eu fiz isso, esse vai e volta, eu colocar, eles absorvem aqui, retorna pra eles. Porque uma cena talvez, talvez uma das cenas foi criada num café quando um bailarino tava conversando com o outro e eu ouvi isso e criei essa cena em cima do que eu ouvi ali, mas os bailarinos não sabem que eu ouvi ou alguma coisa que eles estavam usando, a roupa que eles estavam usando num determinado dia. Eu estou constantemente psico- analisando os bailarinos com os quais eu trabalho, porque eu quero que eles sejam mais eles mesmos no palco, o máximo possível.

E como entra o acaso, no seu trabalho? Nesse aspecto, como você vê o trabalho de Merce Cunning?

NIGEL – Sim. Mas de um modo em que se é absolutamente espontâneo e ao mesmo tempo muito controlado. Pois, eu acho muito chato a repetição de coreografia, quer dizer: tudo marcado.  Acho que muito disso, que talvez seja feito no computar, é tão inumano! E o meu trabalho é sobre ser humano. Mas agora eu percebo que o trabalho do Merce Cunningham é realmente muito, muito humano e que o meu trabalho é de certa forma, não humano, inumano. E é sobre esses opostos se encontrando, esses opostos entre ser humano e ser não humano.

Você poderia dizer um pouco sobre os seus intercessores, ou sobre o que te influencia no seu trabalho?

NIGEL– É muita, muita gente, eu poderia falar muito, por isso que eu acho difícil responder essa pergunta, aí é todo mundo e tudo. Mas eu posso dizer que eu costumava me chocar, costumava ser surpreso, ser tocado por arte, vendo pinturas, lendo livros, ouvindo músicas, indo ao teatro. Havia tempos, havia momentos que eu ficava chocado, as coisas me surpreendiam! E a vida, as pessoas, os pássaros, os animais, a natureza, o mar, as arvores, isso era muito chato porque estão sempre lá, não é? É de graça, não é? Agora inverteu-se esse cenário: eu nunca, nunca, nunca estou chocado por nada na arte, nunca, não me surpreendem.

TIAGO – Ah! Por quê?

NIGEL– Porque tudo é a mesma coisa! (risos) São seres humanos se expressando, então, quando a gente costumava escrever nas cavernas, búfalos e vacas, como quem dançava ao redor da fogueira, nus, não é a mesma coisa então. Mas a arte é a mesma coisa, a arte se tornou mais sofisticada e tem diferentes fases: moderno, pós-moderno, pós, pós-pós-moderno etc. Humano e inumano. Tudo é arte, artifício, a gente gosta de fazer coisas que não tem nenhum objetivo, não tem nenhum, não serve pra nada, a arte não tem um objetivo, não tem um propósito! Mas também as flores não têm não.

“Somos muito arrogantes, achamos que estamos no controle, que temos o controle do mundo e nós, de fato, não temos!”

TIAGO– Ah! Mas as flores servem pra alguma coisa, as abelhas vão lá e beijam…

NIGEL-Ah! Mas as flores não pensam assim: “Hoje eu vou estar bonita, vou abrir assim e ficar toda bonita.” De qualquer maneira, eu não me sinto chocado pelos seres humanos, o que eles fazem, porque os seres humanos são muito estúpidos, são muito idiotas e não houve nenhum progresso real, verdadeiro, desde que a gente chegou aqui nesse mundo. Nós ainda nos matamos, nos matamos em nome de Deus, um Deus que nos criou. E nós realmente não mudamos. Somos muito arrogantes, achamos que estamos no controle, que temos o controle do mundo e nós, de fato, não temos! Mas agora a natureza e as flores e os pássaros, o oceano e a terra e o universo, tudo isso pra mim é impressionante, incrível! E a vida, certo? Normal, na rua, sentado num ônibus, indo para o ensaio do teatro é muito mais fascinante e interessante, muito mais do que ir ver o Robert Wilson em Berlim, na Alemanha. Ou mesmo ir ver a Pina Bausch. Porque as pessoas normais vivendo a vida deles é o milagre diário.

TIAGO– Por que isso? Não será porque precisamos sobreviver trabalhar, e é isso que a gente treinou?

“Tudo que eu faço no teatro é tentar fazer as pessoas se lembrarem disso, lembrar, fazer com que as pessoas se lembrem de quem elas realmente são, porque elas estão adormecidas, eles estão sonhando, e eles estão sonhando que eles são uma pessoa sozinha nesse mundo e que eles são diferentes de tudo!”

NIGEL-(risos) Ah! Eu faço porque eu amo isso! Eu falei que os seres humanos são estúpidos, idiotas, mas os seres humanos são bonitos, maravilhosos, perfeitos e eles são manifestações sólidas de amor! Porque eles são humanos eles não conseguem aceitar que eles são o amor, eles são amor, eles não podem, não conseguem aceitar, não perceberam quão fantásticos eles são! Os seres humanos têm sempre um problema no mundo: ninguém me ama, eu não tenho dinheiro suficiente, sou feio, sou muito gordo, sou muito magro, eu não sou famoso, eu não tenho espiritualidade muito desenvolvida! Não existe problema, o único problema é a pessoa, você é o problema, se você acha que tem problema. Então o teatro, quando eu estou trabalhando no teatro, é isso que eu tento expressar para as pessoas, estou tentando dizer pra eles que não existem problemas, não tem nada pra ter medo, e tudo que existe é o amor e eles sabem disso, mas eles esqueceram. Tudo que eu faço no teatro é tentar fazer as pessoas se lembrarem disso, lembrar, fazer com que as pessoas se lembrem de quem elas realmente são, porque elas estão adormecidas, eles estão sonhando, e eles estão sonhando que eles são uma pessoa sozinha nesse mundo e que eles são diferentes de tudo! Que eles estão separados de tudo e isso é o sonho da individualidade e o fato é que ninguém é individual, toda vida é uma só! Isso não tem nada a ver com fé ou espiritualidade, isso é um fato cientifico tudo é feito de átomos e somos átomos, todos os átomos são as mesmas coisas e nós todos somos o mesmo. Todos somos parte de tudo!

TIAGO– Eu acho que você faz…

NIGEL– Tudo que eu faço é um ato de amor!

TIAGO– Eu acho que agora entendo porque você ama ou odeia a religião, porque o teatro que você faz é um tipo…

NIGEL-Sim, porque o teatro é uma forma de religião, é um ritual, por isso que as pessoas vão ao teatro, é um ato de comunidade, de estarmos juntos, mesmo que eles estejam lá, lado a lado, com estranhos, fingindo que eles estão tendo uma experiência individual com o espetáculo. Porém, o ato do teatro ou da arte é trazer as pessoas juntas, é ficarmos juntos, porque é um número de pessoas compartilhando a mesma experiência, ao mesmo tempo, o que dá às pessoas um sentimento, uma sensação de estarmos juntos e isso é o amor! Aí, nessas situações, o amor está acontecendo! Toda arte é sobre expressão do amor. Não importa se a arte é bruta, é feia, com pessoas se cortando e sangrando em frente ao publico… É tudo a expressão do amor. Porque é um ato das pessoas demonstrarem que estão sendo humanas. O ser humano é um ser de amor!

– Uma questão assim mais específica: o teatro físico, nós temos percebido que vários grupos e experiências diversas. É possível ter uma definição, ou são muito diferentes?

NIGEL-É muito difícil falar o que é o teatro físico. Muitas pessoas têm definições diferentes. No fim das contas se você pode falar que o que você falou é teatro físico, vai ser. Na Inglaterra, o Teatro físico vem de diferentes raízes, de diferentes caminhos. Têm companhias de teatro que são muito baseadas no texto, mas que a forma, o formato é muito físico, corporal, eles correm muito, fazem coisas, mas ainda é baseado na palavra, usam objetos de alguma, de maneiras diferentes. É um teatro muito visual, eles não dependem totalmente da palavra. Tem uma companhia que se chama Complicite, que já é muito antiga, mas no inicio eles eram uma mistura de atores que faziam um teatro baseado na palavra e  na mímica. Então eram esses dois trabalhos se juntando, se encontrando. Eu não estou falando de mímica clássica, mas era uma mímica que era mais física, mais exagerada, utilizando mais o corpo inteiro. E a maioria do trabalho deles tinha por base ou num livro ou numa peça de teatro. Além disso, tem o pessoal do circo, que usa suas habilidades de andar em corda bamba, malabarismo… E o que eles fizeram foi criar uma linha de narrativa pelas coisas que eles sabem fazer, suas habilidades. Uma peça de teatro, mas a partir do circo. Mas também há companhias de dança, nas quais bailarinos são treinados em dança, ou no balé ou técnica moderna, e eles começaram a ficar menos abstratos menos presos à forma. Eles tentaram colocar um pouco, tipo uma história no trabalho, ficou mais teatral o trabalho, deixando de ser apenas uma exibição de habilidades corporais, que são habilidades de técnicas de dança.

“O Teatro físico fez com que a dança se tornasse mais popular, as pessoas começaram a ver mais dança, porque o teatro físico começou por utilizar a dança como elemento.”

E isso é diferente do balé, porque o balé tem uma forma, um vocabulário realmente definido e também tem uma história, mas as histórias são muito antigas: “A Bela Adormecida”, “O Lago dos Cisnes”. Porém, nesses casos a história é uma desculpa para os bailarinos mostrarem o que eles sabem fazer, é um pouquinho de história e alguém chega lá e faz um solo e o coro de balé acompanha. São apenas imagens bonitas. É um pouco como nos musicais, no teatro musical há uma desculpa, um pretexto para cantar uma música, mas a música pára a história para acontecer. E há artistas que começaram a escrever canções que serviam para a história, tinham uma função ali ativa, primordial na historia. E as pessoas se envolviam com a canção, tinham um sentido na história.

A mesma coisa aconteceu com a dança e o teatro físico. O Teatro físico fez com que a dança se tornasse mais popular, as pessoas começaram a ver mais dança, porque o teatro físico começou por utilizar a dança como elemento. Porque o que existia antigamente ou era balé ou ópera e isso era só para pessoas ricas. E a maioria das pessoas não entendiam nem o balé nem a ópera, então. Mas agora nós temos o teatro musical, os musicais e o teatro físico, e muitas pessoas entendem imediatamente. Não precisa de nenhum treinamento ou conhecimento específico para entender, como você que você precisa entender o balé ou a ópera. Não a maioria das vezes, mas geralmente sim.

São todos esses diferentes tipos, estilos de teatro, como mímica, as companhias de dança, o teatro físico, o pessoal do circo, de certa forma, eles, todo mundo pegou emprestado um pouco, um do outro. Então o pessoal que é baseado no texto, que trabalha só com a palavra pegou um pouco da fisicalidade, da corporalidade dos bailarinos e as companhias de dança tomaram emprestado a narrativa, o drama do teatro, do pessoal que trabalha com palavras e colocaram isso nos trabalhos deles. Então, agora, a maioria dos trabalhos de teatro, são um híbrido desses diferentes elementos.

  Fale um pouco sobre improvisação no seu processo de criação. Qual é uma improvisação de um teatro físico?

“… o que eu faço na verdade é criar uma situação no espaço, na qual a improvisação acontece.”

NIGEL– Eu acho que, primeiramente, improvisação somente é improvisação quando não tem estrutura, não tem informação prévia, não tem nada! Porque se alguma possui alguma estrutura, ou algum tema é dado, as pessoas não estão improvisando. Mas tendo dito isso, quando eu estou trabalhando num teatro, eu inicio um trabalho com improvisações estruturadas. Porém, de modo bastante muito sutil.  Não imponho, o que eu faço na verdade é criar uma situação no espaço, na qual a improvisação acontece. Então de alguma forma, usando música e algum tipo de instrução, eu tento transformar a atmosfera, o espaço em que a improvisação está acontecendo e aí os atores, bailarinos improvisam.

Mas à medida que o trabalho progride, a peça vai sendo criada, eu retiro mais as regras, os temas, as estruturas, as instruções para que a improvisação aconteça no espaço, se você quiser, um espaço vazio. E com o Teatro Físico, a Dança-Teatro, o que eu procuro é algum tipo de uma imagem universal, algo visual que não depende de palavras ou língua, mas ela é por si só forte no visual, a imagem ou a emoção que é gerada pelo performer, pelo ator, bailarino e qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo, pode entender de alguma maneira, imediatamente. E o Teatro Físico ou Dança-Teatro, quando funciona, né? Aí é sublime e transcende. O problema …

“Porque o físico é universal, o corporal é universal, o corpo é universal e a palavra separa as pessoas umas das outras, as línguas separam as pessoas umas das outras.”

O que eu quero falar sobre palavras, sobre a palavra, o texto, é que elas são muito específicas e é muito difícil ser ambíguo, ser universal, somente falando uma língua estrangeira. Se eu tiver num país onde eu não falo a língua, aí eu não entendo, não da pra se comunicar, mas se você faz algo físico, qualquer pessoa entende, todos os seres humanos entendem. Porque o físico é universal, o corporal é universal, o corpo é universal e a palavra separa as pessoas umas das outras, as línguas separam as pessoas umas das outras.  Então, a improvisação eu acho que é útil para criar material, para gerar material, para criar para o trabalho, para colocar no palco. Mas o mais importante é ter muita improvisação para fazer melhores, melhor, para os performers se aprimorarem. Atores e bailarinos que improvisam muito, pra mim, são muito melhores performers do que os que não improvisam muito.

Se você pudesse expressar, dizer o lugar do corpo, no seu trabalho, digamos assim, de um modo conciso, mas numa espécie de fórmula poética… (risos).

TIAGO– Ele vai falar: “Isso não é justo. Isso que você esta pedindo”.

O que é o corpo no seu trabalho? A sua última frase!

NIGEL-Não da pra eu falar só uma frase. O corpo é central, é o que você vê, é o que se vê no palco. Eu trabalho com pessoas, eu trabalho com corpo, e existem outros corpos assistindo a esses corpos no palco. Então, existe um reconhecimento: há um corpo ali, há um corpo aqui, o meu corpo, o seu corpo que está ali. Você se dá conta inconscientemente, você percebe inconscientemente que nós estamos todos relacionados de alguma forma, todo mundo é parte da mesma família, nós somos 98.5% chimpanzé. E que existe mais diferença entre uma zebra e um cavalo do que existe entre toda a raça humana, todos compartilhamos a mesma informação genética.

TIAGO – Ah… Eu acho que Nigel está se desviando da pergunta…

Então, vamos lá: numa frase!

NIGEL – Eu não sou o meu corpo.

Referências –

Nigel Charnock (1960-2012)

Vídeos –

– Vídeo: Trechos de Dead Dreams of Monocrhome Men, um dos clássicos do DV-8, onde Nigel atua.

– Entrevistas com Nigel (em Inglês, acompanhadas de imagens):

Autor: Luiz Carlos Garrocho

Pesquisador e criador cênico, arte-educador e gestor cultural.

Um comentário em “Nigel Charnock (1960-2012): uma entrevista sobre teatro físico”

  1. Viva Nigel! Obrigado por tudo querido amigo! Abraço forte no seu coração, Tiago

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