Intervenção urbana: É proibido deitar

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Imagem de Teresa Marinho

Proibido deitar: este é o título da intervenção urbana produzida pelo Grupo de Teatro O  Clube,  cujo mote é a expressão homônima inscrita nos bancos do Parque Municipal de Belo Horizonte. O elenco performador tem as presenças de Patrícia Siqueira, Daniel Toledo, Isaias Campara, Regina Ganz e Carolina Rosa. A direção é de Rita Clemente.

Por que chamar este tipo de trabalho de intervenção urbana? Em primeiro lugar, porque difere, pelo menos em princípio, do teatro em espaços abertos e do teatro de rua. Alguns outros nomes  são utilizados para definir as performances que interagem diretamente com os espaços, como site specificenvironmental theater. Cada um desses termos carrega suas conexões, vínculos, percepções, contextos etc.

E por que difere do teatro de rua? Porque este tem a marca de ser um teatro que se apresenta nos espaços abertos, numa emissão de signos que remontam a uma representação, a um discurso dirigido a uma platéia.  Mais do que isso, temos uma ficção que se utiliza da concretude dos espaços como um suporte e não como o próprio discurso da encenação. Ao contrário disso, Proibido Deitar ocupa espaços do Parque, dialogando com cada lugar específico, intervindo na sua paisagem, utilizando elementos do ambiente. Em tese, diríamos que se a performance em tela fosse apresentada incólume em outro lugar, já não seria um site specific etc. Para utilizar uma distinção realizada por Matteo Bonfitto ( 2009) sobre o teatro dramático e pós-dramático, diríamos que o teatro de rua  carreia-se na representação teatral, no aspecto referente da forma dramática (daí a concretude dos espaços de apresentação remeter em geral a uma realidade ausente e, através desses elementos, “representada”), enquanto a intervenção urbana é auto-referente, tendo a concretude (corpo, espaço e tempo) como sendo o próprio discurso.

Logo no início, um homem está de terno, com um megafone na mão, emitindo algumas falas poéticas e metafísicas,  que revelam também alguns traços cotidianos. O performador é Daniel Toledo, que escreve no Blog de Risco pequenas prosas poéticas, como aquelas que ele apresenta na performance. Em alguns pontos podemos ver bilhetes  pregados nas árvores, com expressões desse tipo. Apresenta, além disso, elásticos amarrados nos pulsos, que por sua vez se ligam a pontos longínquos, atravessando os espaços do Parque.  E o tempo todo ele marca as horas que passam: “são 16 e dez…’ e assim por adiante. A função actante logo se torna evidente: além de emitir tais signos verbais ele conduz os espectadores pelos espaços. Seu dispositivo funciona dramaturgicamente como um enunciador do lugar de ver e do que se segue a cada acontecer.

Imagem: Teresa Marinho

Por fim, ele nos guia a um espaço aberto, no qual nos deparamos com bancos cobertos de lençóis brancos. E aqui se insinua, além do tempo sempre marcado, um dos elementos semânticos da performance, que se desdobra em atos ligados ao dormir (ou ao não conseguir dormir). Este traço irá atravessar a obra e passamos, então, a entrar nas regras do jogo. Aparecem os outros performadores. Eles também estão com os pulsos amarrados com elásticos e aos poucos uma trama de elásticos perpassa os espaços entre árvores e jardins. Surge mais um elemento novo, caracterizando uma espécie de instalação visual que também fará parte do jogo. Assim, a intervenção Proibido Deitar terá essa característica de  plasticidade intervindo no Parque Municipal.

Os performadores aparecem, então, com machados e estabelecem coreografias nos espaço. Outra característica do trabalho de Rita Clemente: a definição de linhas de visibilidade e a retirada de qualquer possibilidade de uma interpretação psicológica. Essa era uma das questões que Antonio Araújo, consultor do projeto Laboratório: Textualidades Cênicas (com curadoria de Fernando Mencarelli e Nina Caetano), que por sua vez fazia parte da ação Arte dos Teatros Municipais (gestão 2005-2008), coloca para o grupo. Sim, a ação surgiu inicialmente no âmbito desse projeto e foi crescendo ao ponto de tornar-se uma performance madura e mais definida do ponto de vista da linguagem e do enfoque semântico. A entrada de uma diretora como Rita Clemente foi muito importante para ajudar o grupo a se direcionar na escolha da linguagem e na definição das linhas de criação. O que havia antes era justamente uma indefinição que, ao lado de momentos potentes, apresentava vários caminhos que pediam escolha, definição. Nessas linhas de visibilidade, há um investimento maior naquilo que Luiz Fernando Ramos, ao discutir a operacionalidade do conceito de pós-dramático, chama de poética da encenação. Aliás, um pequeno parêntese: Antônio Araújo dizia que faltava ao projeto Laboratório justamente o investimento na linha da direção teatral, a fim de dar mais consistência final para as criações cênicas.

Com os machados em punho, os performadores estabelecem contato visual com outra instalação: uma série de colchões suspensos no ar, pendurados nas árvores mais altas. Um espetáculo bonito de se ver, realmente. Cabe lembrar, ainda, que  a entrada dos machados apresenta um novo elemento semântico, uma nova trilha narrativa, ao lado daquela que há havia se estabelecido pelas conotações ligadas ao dormir.

Somos convidados a seguir em frente, sempre tendo as horas pronunciadas pelo performador que leva o megafone. Assim, outros espaços e ações surgem. Uma destas é o belo momento em que Patrícia interage com as cabeças imensas dos fundadores da cidade. Depois (ou antes?), temos a ação de uma espécie de banquete, também com clara definição coreográfica, quando dois carros puxam elásticos entre si, com uma trilha sonora e um banquete ao fundo. Apesar da limpeza das ações e do envolvimento que proporcionam com o público, esta cena parece abrir uma nova constelação semântica, até então não apresentada. E fiquei me perguntando o que ela teria a ver com o que vimos antes e como irá comprometer, ou melhor, afetar o que virá depois. Não vi isso acontecer. Tive a sensação de estar frente a outra performance, diferente das  ações e das linhas semânticas e mesmo da sintaxe (apesar dos elásticos aparecerem novamente) instalada em nossas mentes e nos espaços do Parque Municipal.

Imagem: Teresa Marinho

A partir desse ponto surgem pequenos trabalhos solos, onde cada performador pode explorar algumas narrativas. Estas são literalmente “faladas”. Nesse ponto surge em mim outra dúvida: já não estamos em outro registro de linguagem performática? Digo isso porque algumas dessas pequenas cenas não nos remetem mais à concretude dos espaços e tempos, à linguagem do site specific ou da intervenção urbana, mas ao aspecto referencial da representação teatral, como foi dito antes. Ou até mesmo,  como perguntava Antônio Araújo, se aquela cena não poderia estar num espaço convencional de teatro. E isso, deve ser lembrado, sem qualquer julgamento de valor. Aliás, não vai aqui nenhuma visão normativa, mas sim uma pergunta. Não poderiam séries distintas estar juntas? Sim, mas então a questão passa a ser como manter coisas heterogêneas num mesmo plano de composição. No caso  de  Proibido deitar, não consegui perceber a conexão. Talvez numa outra leitura…(1)

No final, uma nova instalação surge com as imagens que são descerradas nas árvores, pequenas fotos etc. E a performance termina com os performadores deitando-se em travesseiros nas calçadas e espaços centrais da avenida.

As intervenções urbanas e as performances são obras que nos introduzem num campo de sensações. As potências de É proibido deitar não têm por base tanto a proibição, mas  antes o deslocamento dos planos de sono para o lugar do Parque, de um modo quase surreal: os colchões suspensos no ar, os performadores dormindo no chão (um deles meditando no meio do caminho, ação que é uma não-ação e que está entre a vigília e o sono) etc. Acredito que nesse final reside outro espaço de criação que pode, ainda, ser mais desenvolvido pelo grupo: a saturação do tempo, o trabalho sobre a duração. Quanto tempo eles ficariam ali? No campo do espetáculo, a cena termina, em geral com agradecimentos, aplausos etc. Mas, na performance Proibido deitar a cena final não é um presente contínuo? Então, por que o final ao modo do espetáculo teatral? Não seria antes mais legal sustentar esse estado dos corpos? A diferença da representação em relação ao campo da presentificação reside também nisso: os performadores vivenciam experiências que podem não estar no campo do visível. E que, portanto, podem não ser mostrada (ir embora sem cumprimentar as pessoas…). Como também podem fazer parte desse universo as perguntas que o público carrega, sem solução imediata (“quanto tempo eles ficarão ali dormindo?”).  Enfim, tudo se resume a um espaço-tempo entrevisto, que permanece não totalmente visto.

Imagem de Teresa Marinho

E vamos embora, levando as imagens que a performance nos deixou, numa coreografia de espaços e corpos, de falas poéticas e instalações. Vivenciamos uma duração na qual há seres que estão com muito sono. Lembramos, então, que talvez não possam ou não consigam dormir. E sabemos também que em alguns lugares não se pode dormir…  Uma experiência que nos toca com delicadeza.

Referências –

(1) Assisti à nova edição de Proibido Deitar. As mudanças foram muito interessantes e procuram explorar mais o aspecto performativo aliado às linhas de site specific. O grupo explora mais, além disso, a temática principal. Não há mais a cena do banquete, mas no lugar, outra que me parece mais integrada ao espetáculo. A cena “intimista” também foi modificada, criando uma relação mais direta com o público e mais complexa para a atriz. Podemos ver nisso a obra em processo.

BONFITTO, Matteo. O ator pós-dramático: um catalisador de aporias?  In GINSBURG, J. e FERNANDES, Sílvia (orgs.) O pós-dramático: um conceito operativo?. São Paulo: Perspectiva, 2009.

– Veja as intervenções urbanas do  Poro.

– Confira postagens sobre intervenções urbanas no blog Olho-de-Corvo.

– Pesquise no site do Projeto Arte Cidade.

Proibido Deitar. Realização O Clube. Junho de 2009

Publicado por

Luiz Carlos Garrocho

Pesquisador e criador cênico, arte-educador e gestor cultural.

2 comentários em “Intervenção urbana: É proibido deitar”

  1. Garrocho, sua visão aprofunda nossa discussão e realmente dialoga com nossos desejos. Será um maravilhoso roteiro para redifinições na finalização do trabalho. obrigada.
    Rita Clemente

  2. Rita,

    Fico feliz de saber que o blog está na direção certa: a de procurar acolher as potências e desejos das criações. E o interessante é que o olhar ensaístico também é um desejo e não pode se furtar a isso. Assim, olhar é voltar a criação cênica em foco sobre o próprio texto: deixar que ele possa ser afectado. Avaliar-se através das potências que encontra no objeto avaliado. Tarefa dicífil, mas não impossível. Para isso precisamos de colocar perguntas que possam produzir alegrias em quem cria e não tristeza. Alegrias de nos surpreendermos também, de levarmos um susto, de ver o tapete sendo retirado… De ambos os lados. De quem olha e de quem faz.

    É um exercício.

    Parabéns por mais este belo trabalho. Ali estão pensamentos criativos, com suas linhas de teatralidade e performatividade, exercitados num espaço urbano. E como todo trabalho working in progress, tenho certeza que estará caminhando até o dia em que sua forma não mais carregará o desejo de se modificar. Então, possivelmente, você e o grupo partirá para outra ação: outra forma de uma força. Não é isso?

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