De carne e concreto: uma instalação coreográfica

Imagem: acervo da Anti Status Quo Companhia de Dança

 

De carne e concreto uma instalação coreográfica, da Cia Anti-Status Quo, de Luciana Lara, de Brasília – no Festival do Teatro Brasileiro (apresentações realizadas em Belo Horizonte, 07 e 08 de Agosto de 2017).  Uma cena que é do acontecimento dos corpos desmedidos, numa paisagem que virou lixo. Um trabalho em que a experimentação é pautada e levada adiante. Em que o espaço dos espectadores e dos artistas não tem separação, onde se os corpos se entreolham, se misturam e interagem nos diversos momentos. 

Quando entramos no espaço, ganhamos uma sacola de papel pardo, com furos para o olhos e para a boca, e somos orientados para usar na cabeça. Ali começa o estranhamento. O espaço enorme – um galpão – praticamente vazio, não fossem alguns sacos de lixo preto, enormes, espalhados. Nesse momento não sabemos ainda o que está em curso, dado que, como espectadores, esperamos que algo ocorra. Mas já é isso o que está ocorrendo. Sentamos uns ao lado, diante e ladeados pelos outros. Aos poucos pessoas com caixas na cabeça nos pegam pelas mãos e andamos como se estivéssemos num shopping, posso imaginar. Paramos, nos observamos: somos todos cabeças de sacolas de compras.

Imagem: Luiz C. Garrocho

Tudo isso é um pouco aflitivo para o espectador – por enquanto um observador também observado. Onde está o espetáculo? Luciana Lara, que dirige este trabalho e a Anti Status Quo, me disse que ouviu alguém perguntar para outra pessoa ao lado: Cadê o coreógrafo? Sim, pois a nossa atenção é flutuante e, isso nos inquieta, somos parte do acontecimento. Depois, um outro modo de fazer dança está em curso. Será dança ainda? Talvez, seria interessante aqui lembrar do pensamento ensaístico de André Lepecki em Exaurir a dança: performance e a política do movimento (Annablume Editora, 2017). Quando ele mostra uma ruptura com o que entendemos como dança.

Aos poucos as sacolas de papelão que levávamos nas cabeças vão sendo tiradas e vemos o início de algumas ações minimalistas. Então, aquela pessoa ali, de mão dada com a outra, como eu em certo momento era a verdade um artista.

Depois dessas pequenas ações que ocorrem em alguns lugares esparsos, tão próximos quanto mais distantes de cada espectador, vemos os performadores/bailarinos abrindo os sacos de lixo. Eles vão tirando objetos (caixas, garrafas pets etc.) nas roupas, se enchendo literalmente numa voracidade sem fim. Os corpos se transformam, ficam imensos. Daí para a frente teremos uma sequência de ações corporais, de acontecimentos, em que esses corpos passam a puxar das roupas, uns dos outros, o objetos, até ficarem completamente nus.

Como espectadores, diversas vezes nos vemos no mesmo espaço desses corpos – então somos uma paisagem para outros também – ou interagindo com eles. Alguém me deu a mão numa espécie de ciranda tortuosa pelo espaço junto ao grupo de bailarinos/performadores.

Imagem: Milla Petrillo

As ações dos corpos nus se sucedem num espaço que virou um mar de lixo. Ali eles mergulham, desaparecem para ressurgir novamente, como seres que nascem desse caldo de restos de consumo em que se transformou o planeta. No final, eles deixam o espaço e nos deixam a sós com o que resta.

Algo se passou com aqueles corpos e com os nossos corpos – falo especificamente disso: daquilo que resta – o que o acontecimento cênico consegue gerar  quando esgarça suas potências até o ponto em que deixa um vazio pleno. Em que eu, como espectador (no caso, um espectador também participante da paisagem), posso subjetivar, quando o que já foi ainda ressoa, continua reverberando.

O que me chama a atenção, em primeira mão, é o caráter de acontecimento. Luciana Lara vem há muitos anos desterritorializando o campo da dança para reterritorializá-lo na experimentação. Ou seja, em contínuas desterritorializações. A função espetacular é, por esse caminho, desviada para buscar a cena como espaço e tempo do encontro. Não que as imagens e instalações não sejam também, em algum sentido, prioridades nessa pesquisa. Porém, nesse trabalho instalado/performado em Belo Horizonte, eu pude constatar esse veio da cena contemporânea.

No entanto, os bailarinos/peformadores instauram a experiência de um corpo que existe como problema em si mesmo – que eu destaco como um das linhas de força desse processo, dessa tessitura que Luciana Lara e Cia entretecem nesse trabalho. O nome instalação coreográfica diz o que vem a ser o que iremos compartilhar. A instalação, no caso, é um problema de corpo. E do que podem e desejam os corpos. Nada indica, pelo menos no que pude vivenciar ali, que o corpo está se mostrando à luz (literalmente, pois não há cortes de iluminação, que eu me lembre) de uma apresentação como espetáculo. O que me parece um pouco diferente, quando vejo as imagens do site da Cia, de uma instalação coreográfica em que há recortes de imagens.

Para dar um exemplo disso que eu chamo de linha de força disparadora do acontecimento cênico, há um momento em que os performadores/bailarinos, nus, atiram contra uma parede lateral os objetos que se acumulam e espalham pelo chão na forma de lixo. A sequência obedece à ordem dos corpos e dos impulsos desses corpos – que não são personagens dramáticas e tampouco abstrações coreográficas. São pulsões? Pois eles atiram os objetos de dentro de uma onde energética gerada pela performance e não por necessidade do lugar de ver. As pessoas têm que sair de perto, caso contrário podem se machucar. Não atiram para ofender ou ferir alguém – não miram os espectadores. Eles querem a parede. Quem tiver perto tem que sair.

Por isso eu diria que se instala, antes de tudo, um experimento cênico – e não tanto uma apresentação ou, ainda, exposição. Cena em que o espectador se vê em in situ – lembro mais uma vez.

Volto ao momento final, quando ocorre a dobra semiótica que faz a curvatura do acontecimento cênico – se quiser, da significação – em que lembramos da situação inicial da instalação, quando usamos junto com os performadores/bailarinos ainda desconhecidos cabeças de sacolas de compras e, agora, nos vemos num mundo que virou puro lixo de embalagens e invólucros sem fim.

 

 

Ficha Técnica:

Anti Status Quo Companhia de Dança/ Direção artística: Luciana Lara
Concepção e pesquisa:Luciana Lara em colaboração com bailarinos e artistas colaboradores convidados/ Elenco:Camilla Nyarady, Clara Sales, Déborah Alessandra, João Lima, Luciana Matias, Marcia Regina e Raoni Carricondo/ Bailarinos colaboradores: Camilla Nyarady, Carolina Carret, Cristhian Cantarino, João Lima, Luara Learth, Raoni Carricondo, Robson Castro e Vinícius Santana/ Artistas colaboradores convidados: Marcelo Evelin, Gustavo Ciríaco e Denise Stutz
Figurino: Luciana Lara e elenco? Assessoria de iluminação: James Fensterseifer? Cenotecnia, montagem e produção: Marconi Valadares
Fotos divulgação: Mila Petrillo, Luciana Lara e Marconi Valadares

Mais referências:

 

Autor: Luiz Carlos Garrocho

Pesquisador e criador cênico, arte-educador e gestor cultural.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.