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White Cabin/Russian Engeneiring Group
White Cabin: Akhe Group

Os ensaios que compõem o blog têm por objeto o pensamento – em termos de Duração & Diferença – que  a criação cênico-corporal  realiza quando problematiza o estatuto da representaçãoaliando-se para isso a uma experiência direta  e real de tempo, espaço e corpo. Estamos situados, portanto, no campo de uma cena expandida: performance art, intervenção urbana, teatro performativo, teatro pós-dramático, telepresença, vídeo-performance etc.

O blog Duração & Diferença faz parte do domínio Rede Zero, um espaço de compartilhamento criado pelo artista, ativista rizomático,  Marcelo Terça-Nada.

Duração & Diferença é um exercício de produção escrita dedicada às modulações entre o pensamento das artes da cena e do corpo e o pensamento filosófico, apropriando-se ainda de outras fontes, ciências e poéticas. Inspira-se, além disso, nas práticas de crítica ensaística, tais como foram desenvolvidas, a título de exemplo, pela Nouvelle Vague e pelo Cinema-Novo, onde a criação artística e a teorização se provocavam mutuamente. Uma visão de ensaio crítico feita por quem se envolve com o ato de criar e, a partir disso,  se vê impactado por criações de outros.

Em Duração & Diferença você encontrará análises,  pesquisas e manifestações poéticas no âmbito da criação performática.  É também um espaço de compartilhamento de idéias, experiências e práticas. Não custa dizer, entretanto, que  as abordagens  não têm  pretensão à completude, compondo antes com o não-fechamento do todo.

Não é um blog da última notícia, mas do remoto sentido e da antevisão, do demorar-se. Um slow-blogging

Os ensaios que compõem o blog têm por objeto o pensamento – em termos de Duração & Diferença – que  a criação cênico-corporal  realiza quando problematiza o estatuto da representaçãoaliando-se para isso a uma experiência direta  e real de tempo, espaço e corpo. Estamos situados, portanto, no campo de uma cena expandida: performance art, intervenção urbana, teatro performativo, teatro pós-dramático, telepresença, vídeo-performance etc.

Tudo isso nos conecta, também, ao campo da música, da literatura, das artes plásticas, do cinema, das criações híbridas e dos entre-meios. Afinal, tudo pode ser música, ou poesia, ou cinema. Kandinsky pensou as artes plásticas através da música. A determinação de um domínio envolve, segundo Gilles Deleuze, “toda a virtualidade e coexistência que preexiste aos seres, aos objetos e às obras desse domínio”, configurando uma “multiplicidade de coexistência virtual” (PELBART, 2004).  É o abandono do conhecimento “disciplinar” e de seus vínculos. Tadeusz  Kantor buscava a protomatéria do teatro, aquilo que daria seu sentido de autonomia, paradoxalmente fora do domínio chamado por ele de “profissionalizante”. Afirmava que “é preciso abraçar toda a arte para compreender a essência do teatro” (Lições de Milão).

Os conceitos de duração & diferença, que formam o título e o enfoque do blog,  são tomados da obra de Henri-Louis Bergson, principalmente a partir da leitura de Deleuze.  A grande virada  do bergsonismo está na experiência direta do tempo: virtualidade, processualidade, precedência do movimento sobre a posição, coexistência do passado com o presente. A filosofia de Bergson é um convite para apreender as criações cênico-corporais como modos de habitar a duração. E a duração é justamente o que difere de si (DELEUZE, 1999).

A pertinência de pensar a cena performativa e pós-dramática através dos conceitos de Duração & Diferença incide, necessariamente,  sobre as singularidades do tempo e do espaço nesse tipo de criação.  No entanto, tomar a duração como conceito-guia ao lado da diferença pode dar a entender que o tempo prevalece sobre o espaço, o que seria um contra-senso se temos como tarefa pensar a cena. Ocorre que a duração traz para o tempo não só a experiência direta do mesmo, mas retira a sua condição de ser apenas a quarta dimensão do espaço. Além disso, o tempo linear e sucessivo é um tempo que foi subtraído da duração, esta sim, o dado imediato da consciência. O espaço, tomado em seu aspecto mensurável e extensivo, é antes de tudo um cessar do processo, a sua atualização. Já um espaço intensivo e não-mensurável, será concebido, então, como pura duração.

Dessa duração participam as mais diversas modulações de criação performática. Se o pensamento performativo é concebido como discurso da presença (confluências entre materialidade cênica e corporalidade), caberia perguntar pelas transformações que este passaria quando se trabalha, por exemplo, com a telepresença, as conexões entre performance, internet e vídeo, assim como com as formas de difusão baseadas em mídias eletrônicas e digitais. O compartilhamento  da ação poética como duração, modificaria sua essência? Renato Cohen (2009), um dos mais criativos ensaístas e artistas de uma cena expandida,  defendeu a noção de pós-teatro. Estaríamos diante  de uma desconstrução do “axioma do teatro”, fundado na tríade  “texto-audiência-público”, alterando

“as noções de presença, corpo, espaço, tempo, textualidade, pela inserção da simultaneidade, da velocidade e que – ao mesmo tempo- é plena de dramaticidade ao figurar o acontecimento, o evenément, em escala social e subjetiva.” (COHEN, 2009)

O momento é singular: Deleuze, a partir de Bergson, diz que a duração é a tendência de uma coisa, a sua transformação. Nessa direção, o conceito de presença encontra-se em modificação e expansão, gerando novas potências e, consequentemente, novos problemas teórico-práticos.

Cabe dizer, entretanto,  que o problema do blog não é o estrito estabelecimento das relações entre o bergsonismo e a cena. O foco é a cultura cênica na sua materialidade expressiva. E esta tem todo um potencial a ser explorado em termos de Duração & Diferença. Ou seja: nas singularidades das buscas, das inquietações, dos procedimentos técnicos, dos embates criativos, das soluções encontradas como pura diferença etc.

E é preciso sublinhar: não se trata da aplicação de um modelo teórico a um prática, mas ao contrário disso, no  explorar de convergências inesperadas, ressonâncias e confluências entre pensamento artístico e pensamento filosófico. No caso, o título Duração & Diferença ressalta, antes de tudo, os traços expressivos e materiais dos pensamentos-práticas que são produzidos numa cultura cênica contemporânea.

…exercita-se, assim, como uma contribuição para uma teoria  e crítica ensaística da cena contemporânea. Sem acreditar, no entanto, que algum aporte teórico possa traduzir  e representar a criação cênica e corpórea, muito menos  tornar-se o seu fundamento

O presente blog é uma janela que se abre para as pesquisas teóricas sobre o campo da criação cênico-corporal, passando pelas investigações da dança contemporânea, do working in progress, da cena experimental, da peformance, da cena liminar etc.

Duração & Diferença exercita-se, assim, como uma contribuição para uma teoria  e crítica ensaística da cena contemporânea. Sem acreditar, no entanto, que algum aporte teórico possa traduzir  e representar a criação cênica e corpórea, muito menos  tornar-se o seu fundamento. O exercício ensaístico de Duração & Diferença não busca, por isso, uma teorização englobante, mas sim  a multiplicidade das séries divergentes e a incompletude do projeto.  Entre teoria e cena  encontraremos ressonâncias, provocações e convergências inesperadas, mas não identidades. O ato de pensar (e criar), segundo a leitura que Tatiana Levy, a partir de Blanchot, é uma experiência do fora:

“o contato com uma violência que nos tira do campo da recognição e nos lança diante do acaso, onde nada é previsível, onde nossas relações com o senso-comum são rompidas, abalando certezas e verdades”. (LEVY, 2003, p. 92)

Há conexões com duas outras publicações, que são o blog Olho-de-Corvo e o blog sobre a Cultura do Brincar.  O primeiro dedica-se mais às minhas deambulações pelos temas da cultura, das artes e da micropolítica, incluindo filosofia, e o segundo sobre a cultura lúdica da infância e suas linhas de errânciaDuração & Diferença, como foi dito, cuidará especialmente do pensamento cênico-corporal em suas conexões com a filosofia e o ensaísmo.

Então, vamos à obra em progresso.

Referências

COHEN, Renato.Performance como linguagem: criação de um tempo-espaço deexperimentação. São Paulo:  Perspectiva, 1989.

______. Working in progress na cena contemporânea. São Paulo: Perspectiva,1998.

______. Pós-teatro: performance, tecnologias e novas arenas da representação. Disponível no link do site do Itaú Cultural.

PELBART, Peter Pál. O tempo não reconciliado. São Paulo: Perspectiva, 2004.

DELEUZE,  Gilles. Bergsonismo. Tradução de Luiz B. Orlandi. São Paulo: Editora 34, 1999.

LEVY, Tatiana Salem. A experiência do fora: Blachot, Foucault e Deleuze. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.

Imagem: White Cabin – Akhe Group: russian enginnering theatre

7 respostas em “sobre”

Garrocho, que saudade! Não sou muito blogueira, mas passo aqui prá te dar um alô. O blog está bacana, a discussão muito interessante. Nos falamos!
Paula G

Ei, Marina

Fico feliz de saber que você está encarando a volta para a criação (em teatro), depois de publicar três livros: dois sobre o brincar e o último sobre a infância, o brincar e o teatro.

Agradeço pela dica da obra “A intuição do instante”. Vou colocar nas prioridades de leitura.

Abraços

Oi Luiz
Vai ser muito importante para mim acompanhar seu pensamento e reflexão sobre teatro neste ano que voltarei a criar dramaturgia…
Você conhece um livro do Bachelard, que se chama “A intuição do instante”? Neste livro ele discute as noções de tempo de Bergson e Roupnel, para formular sua própria noção de tempo — e essa noção tem a ver com o instante, e o instante, no meu ponto de vista, é a maneira de viver da criança pequena e dos momentos do faz-de-conta… a tradução desse texto é recente no Brasil, é de 2007 (Editora Verus, de Campinas).
Parabéns pelo novo blog! um beijo da Marina

Thaíse,

A idéia é essa: sem pressa.

Agradecido pela sua visita.

Abraços

Slow-blogging: usando o espaço da informação em favor da experiência, não contra ela.
Parabéns Garrocho, vou acompanhar este também.
Abraços

Maria Carolina,

Você é a primeira a comentar Duração & Diferença! Ainda não o lancei… Mas que bom você ter descoberto logo.

As primeiras postagens estarão sendo publicadas até o dia 05 de fevereiro. Aguardo suas visitas e futuros comentários, bem como contribuições.

Abraços

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