A impregnância do sentido no teatro: O Cara Preta

O Cara Preta
Imagem de Guto Muniz

O que esperamos de cada ato poético, se não isso: refazer os caminhos do sentido e dos sentidos?  O Cara Preta, espetáculo da Maldita Cia de Investigação Teatral (Belo Horizonte), obra em processo que realiza uma pesquisa de encenação e dramaturgia em interação com a concretude dos espaços, reinventa o teatro ao fazer teatro. Não falo de um teatro-modelo.  E não há nenhum exagero nessa afirmação. Cada obra é singular no modo como resolve o embate das forças que atuam sobre ela.

Há uma impregnação do sentido em O Cara Preta. Sim, o sentido no lugar da significação. Essa impregnância ocorre em todos os elementos da encenação.  O que é isso?

A Cia Maldita vem utilizando a materialidade da cena como linguagem: o uso dos elementos do espaço concreto, os aspectos do vísivel e do invísivel (aquilo que some do meu campo de visão mas cuja presença, seja sonora ou pura ausência  eu pressinto), a intromissão de traços do real (o compartilhamento do tempo-duração com os espectadores, a utilização de objetos que resistem à ficção e ao mesmo tempo dialogam com ela ), a atmosfera gerada pela encenação etc. O que chamo de impregnação é aquilo que penetra, percorre e adere à experiência teatral gerada pelo espetáculo. Em última instância, tudo o que se recusa a ser suporte material (significante) e passa a ser o próprio discurso da encenação.

O Cara Preta fala da criminalidade, da sobrevivência brutal e até mesmo em sua modulação animal, abordando lugares e existências sociais. O espetáculo corre num espaço da Cia Maldita chamado de “gruta”, consistindo num corredor, uma pequena sala que possui janelas e portas para dois espaços menores e um maior, que sairá do outro lado da rua. As encenações dialogam necessariamente com essses lugares.  Entretanto, o espetáculo percorrerá outros espaços concretos e delimitados na sua concretude, para que o experimento do diálogo entre a ficção e a realidade existente na sua materialidade possam ser explorados. A cada lugar um modo de produzir sentido. Essa a trilha da Cia. Maldita.

No caso de O Cara Preta, os dois dados – ficção e realidade material – subsistem em suas presenças, sem que um se converta totalmente no outro. Há conversão, mas sempre sobra um vestígio material não incorporado, e que é denunciado, atritado e impregnado aos enunciados. Um buraco no chão é o barraco de um vizinho que será tomado, o pequeno quarto vira uma casa de ricos e depois um casebre de sertenejo e assim vai. A cenografia não é montada para ilustrar a encenação: assim, a concretude do espaço não explica a ficção. Os objetos, os elementos diversos transformam-se aos nossos olhos e ao mesmo tempo conservam sua existência, resistindo às imagens da narrativa das ações sonoras (vocais, musicais, de ruídos etc.) e corporais (gestualidades, movimentos, atos poéticos etc.).

o-cara-preta

A impregnação começa com o trabalho de ator de Lenine. Dizer que ele incorpora não ajuda muito. Incorpora o quê? Os personagens das três histórias? Mais do que isso: ele produz uma duração corporal e sonora. Temos uma atmosfera gerada, ou melhor, segregada pelo seu corpo, saindo pelos poros. Uma viscosidade do sentido – podemos sentí-lo e tocá-lo, diria. Quando digo que Lenine reinventa para si e para nós o teatro, estou falando de um experiência singular de tomar as palavras e torná-las algo pesado como o óleo, ou o sangue coagulado.  É muito diferente do teatro da oratória, sem com isso querer desqualificá-lo como experiência poética. Por que oratória? Simplesmente porque a representação e a interpretação estão à frente da experiência corporal, de sua realidade. Aqui, ocorre ao contrário. Não há dúvidas de que o texto falado é condutor da ação e que há uma centralidade do ator, mesmo que transformados pelos elementos com que dialogam e que lhes resistem com sua materialidade e imagens que lhe são próprias e inerentes. Mas a narração verbal é um problema corporal, antes de tudo. E nisso reside a diferença que Lenine fabrica com seus comparsas de criação. Esse texto transforma de tal modo o seu enunciador que este passa a sofrer. O ponto final, na frase anterior, é de propósito.

Inevitável falar da qualidade dessa vocalização. Não há nenhum exagero emocional, nenhum derramamento sentimental, nenhum descontrole. E no entanto, tudo se descontrola… Ele consegue gritar sem gritar. E essa vocalização é pura impregnação da palavra que fica colada, pela sua viscosidade, na pele do ator e, por proximidade, resvala na nossa. E opera passagens entre a primeira e a terceira pessoa, as vezes narrando o ator o que seu personagem vai fazer. A atuação ou performação manipula sensorialmente os elementos ou por eles é afectado, produzindo os nexos de sentido que o texto narrado provoca.

A impregnação, viscosidade e atmosfera que O Cara Preta produz como experiência teatral é, portanto, uma modulação transformativa da materialidade (voz, corpo, duração, objetos, textuturas, imagens, sons, iluminação etc.) e do mundo implicado (presença das forças que atuam sobre a obra), que pode ser entendida como um fluxo operacional e expressivo, nas trilhas de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Falo da transformação topológica de materiais e afecções. Um exemplo disso é a abertura, com o personagem o Boi, cuja “máscara” é um enorme refletor na cabeça, causando um estranhamento muito grande. Aliás, o mascaramento, sob diversos regimes sígnicos, é uma das marcas desse espetáculo.

0272_cara-preta_20090226
Imagem de Guto Muniz

O Cara Preta tem a direção de Amaury Borges, um dos parceiros diretos e co-fundador dessa pesquisa, a atuação de Leinine Martins, a dramaturgia de Letícia Andrade (sendo os textos de Lenine e de Letícia), a direção musical de Ricardo Garcia, como trilha sonora do mesmo e de Admar Fernandes, a iluminação de Amaury e de Felipe Crosse, com cenografia de Lenine Martins, Amaury Borges e Patrícia Lanari.

Referências:

O Cara Preta estreiou em Belo Horizonte, no espaço da Gruta, rua Pitangui, 3613C – Horto, em Maio de 2009. E-mail da Cia Maldita: malditacia@yahoo.com.br

Autor: Luiz Carlos Garrocho

Pesquisador e criador cênico, arte-educador e gestor cultural.

4 pensamentos em “A impregnância do sentido no teatro: O Cara Preta”

  1. Em CARA PRETA, a Maldita Cia. dá continuidade à pesquisa de alguns dos seus princípios fundantes, como a investigação de elementos estruturantes da cena (dramaturgias do espaço, dos sons, da iluminação, das textualidades e intertextualidades,etc.), o trabalho em processo, a co-autoria compartilhada na criação e as questões bio-políticas que inquietam seus integrantes. O desejo é o de tocar na via poética e afetiva no encontro da cena. A busca se sustenta numa linguagem (investigação do épico e dramático) que possa afetar de maneira cinestésica e reflexiva o espectador e colocá-lo em condição de atuante. Nesse sentido,caro Garrocho, o espectador é co-responsável pela tensão dialética, aqui sem juizo de valores, entre a cena e a própria recepção.E por assim dizer, “o seu corpo-perceptivo-midiado”, torna-se , voluntário ou involuntáriamente, co-autor da encenação.

  2. Amaury,

    Ótimo esclarecimento sobre o processo de criação da Maldita Cia. Um espetáculo para assistir de novo, principalmente quando estiver em outro espaço-contexto.

  3. Que interessante…a narração verbal é um problema corporal…gritar sem gritar. é um problema também de substituição e hierarquização, o que acontece quando a fala sobrepõe todo o corpo. O seu ponto final proposital diz mais do que poderia ter sido dito.
    um beijo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *