2014
05.03
rasante

Imagem: Guto Muniz: http://www.focoincena.com.br/

(ra.san.te)

1. Que passa muito próximo do solo.

2. Diz-se de fortificação cujos muros são baixos.

3. Diz-se de tiro disparado mais ou menos rente ao solo.

4. Voo rasante (1).

[F.: rasar + -nte.]

Dicionário Aulete

 

Rasante me traz sensações e, ao mesmo tempo, elementos fecundos para a pesquisa de linguagem – de um teatro de imagens produzidas pelos corpos, de uma dança intensiva e da constituição de atmosferas. Tem a direção do ator, bailarino e coreógrafo Sérgio Penna e a participação dele e dos atores-bailarinos-criadores Gabriella Christófaro, Bernardo Gondim, Lourenço Marques e Grace Passô.

A cena é classificada como dança. Tudo bem, isso serve para os editais, para os projetos de circulação etc. Na verdade, é inclassificável, como afinal toda arte que pode produzir afecções em você. E que por sua beleza – sim, o belo como força de deslocamento – também vai muito além dos gêneros artísticos. Tem uma poiesis do corpo – e dos meios que o atravessam e o tangenciam. São bailarinos-atores ou atores-bailarinos – tanto faz: cabe aqui essa descrição de Eugênio Barba. (mais…)

2014
01.03

Uma boa conversa com Marcelle Louzada, acompanhada do músico Philipe Lobo. Marcelle agora mora em Fortaleza, onde estuda, prepara-se para o doutorado e trabalha com dança e performance.  Falamos de nossos projetos, estudos etc. Entretanto, predominou o assunto sobre os espaços das cidades, o corpo, o confronto com os padrões de comportamento e os modos de produzir significados, a estética e o real.

Marcelle contou-me que ela já havia realizado muitas sessões de dança, composição e improvisação em espaços públicos. Mas que não sentia força, sentido de apropriação, diálogo com a cidade. Não que trabalhar com movimento e criação ao vivo, em ambientes abertos, não fosse interessante. Mas ela sentia falta de algo. Só foi encontrar quando passou a condensar, posso dizer assim, uma corporeidade questionadora, capaz de produzir atritos, choques, rupturas. No dia Internacional da Luta da Não Violência Contra a Mulher, 25 de novembro, quando mulheres do mundo se encontram para discutir questões do gênero feminino, cultura e políticas públicas, segundo Marcelle, ela faz uma performance urbana bem agressiva:

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2013
04.05

heart-sutra

“Ó Sariputra, aqui a forma é o vazio e o vazio é a forma;/ tudo que tem forma é exatamente o vazio e tudo que é vazio é /exatamente a forma.”

Sutra do Coração da Grande Perfeição da Sabedoria (Índia, séc.1D.C.) Versão do Mestre Zen Ryotan Tokuda.

Eu andava fascinado com duas ideias que eram, obsessivamente, buscadas e exercitadas: os espaços e os vazios. Não só nas minhas oficinas de teatro, mas também em mim mesmo eu criava um laboratório para realizar experimentações.  Observava, além disso, os movimentos das artes marciais e as brincadeiras corporais das crianças (de repente, um mergulho rápido num espaço vazio que se abria…). Um dia, Jória Lima, que havia participado como consultora de dramaturgia em Fabulário me disse assim: – Vejo que você está buscando uma criação com uma outra coisa que não é comum na maioria dos exercícios de atuação teatral. Posso chamar isso de uma prática de espaços?

Foi então que eu entendi o que procurava. E que estava cada vez mais distante das modalidades do teatro de personagens dramáticas. Percebi também que eu não trabalhava mais com interpretação, mas sim utilizava outra coisa: a noção de composição – como já me alertara Gil Amâncio, músico e artista cênico, parceiro de muitas inquietações. São estudos compositivos, dizia ele. Outra pessoa notou que eu me aproximava da dança. Mas, então, teatro e dança têm realmente que vir separados? Interessei-me pela Performance, numa interface com o Teatro Físico.

Um dos exercícios básicos de composição,  que então passei a desenvolver, intitula-se Vazio e Forma. O nome vem do Budismo Zen, de uma citação do Sutra do Coração da Grande Perfeição da Sabedoria (Índia, séc.1 D.C.). O sutra, também chamado de Prajna Paramita, relaciona forma e vacuidade e sua mútua interdependência.  (mais…)

2013
03.14
DuscursoCoraçãoInfartado1

Imagem:Ricardo Júnior – divulgação

Fui assistir ao solo de Silvana Stein, Discurso do coração infartado, que tem direção e dramaturgia de Ricardo Júnior e da própria atriz. Sai tocado pelo cuidado, pela técnica, pela sensibilidade e beleza deste trabalho.  Além disso, não é todo dia, também, que podemos estar ali, diante de uma artista que está em pleno processo de amadurecimento – o que, para nós, significa verter a flor com a maestria de artesão. E que se entrega de corpo e alma através de uma linguagem. Aliás, lembro mais do que nunca, aqui, de Maurice Blanchot: a linguagem é o lugar da atenção.

Entregar-se, é preciso dizer mais uma vez, não é estrebuchar-se. Dario Fo, o grande dramaturgo e diretor, diria de outro modo: um bom ator é como um bom nadador: não joga água fora da piscina! Silvana nada com maestria. (mais…)

2012
12.24

“Cada movimento- disse-me ele – tinha o seu centro de gravidade; bastava controlá-lo a partir do interior do boneco; os membros, que não passavam de pêndulos, seguiam por si mesmos, sem nenhuma intervernção mecânica.”

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2012
09.28

 

“Eu e Lloyd começamos o DV8 porque a gente não entendia a dança. Então, nós éramos bailarinos treinados e a gente ia a espetáculos de dança e nos sentíamos completamente por fora.”

Fiz essa entrevista com Nigel Charnock em 2005, um dos fundadores do DV8 Physical Theatre. Tiago Gambogi fez a tradução ao vivo, realizando também algumas intervenções. Nigel estava em Belo Horizonte para ensaios e apresentação de Made in Brasil, espetáculo dirigido por ele e com atuações de Tiago e Margaret Swallow. Na ocasião, eu preparava minha dissertação sobre improvisação e teatro físico. Nigel nos deixou no dia 02 de Agosto deste ano. Um artista ainda jovem, de muito talento e energia criativa. Um achado, para mim, é o modo como Nigel relata a questão do corpo na dança moderna, no teatro dramático e no teatro físico. (mais…)

2012
06.17

Imagem: Tomàs Rotger: http://www.tomasrotger.com/

 

A experiência do tempo na performance

O tempo como experiência direta, como o sensível sobre o qual se opera a composição no instante. Pois foi na abordagem das velocidades e lentidões, da duração e da repetição, que encontrei as entradas para uma dramaturgia de estados (passagens para o plano das intensidades). Isso ocorreu ao mesmo tempo em que o desenvolvimento dramático deixou de se impor às criações corporais em flutuação e que emergiram das oficinas e cursos de improvisação. Um pensamento que se faz, igualmente, provocador da própria mise en scène.

E tão aliado quanto provocador dessa deflagração corpórea flutuante, o tempo tornou-se um fluxo operatório e expressivo – um caminho compositivo. Acrescente-se a esse espectro a questão do tempo como elemento que dialoga com o performador – como um co-atuante.

Começo, então, pela seguinte pergunta: qual a estruturação ontológica da experiência do tempo de uma determinada performace?  (mais…)

2012
03.09

Quando é que um corpo-artista realiza um encontro com a técnica, de tal modo que esta deixa de ser uma defesa diante da vida e de seu estado precário? E em que a polaridade “corpo” e “artista” desaparece ou não faz mais sentido?  Não porque tudo aquilo que nos ameaça, tendo por resposta um arcabouço qualquer, se dê necessariamente por vencido. Mas sim porque tais coisas passam a fazer parte do assombro de viver como jogo e signo. A Projetista, de Dudude, coreógrafa, bailarina, performadora e atriz, traduz isso.

Porém, não é  fácil dispor de si como signo, ao modo do abandono de si.  Pode até acontecer de repente, mas leva muito tempo. Tempo que também se perde, já que a vida escoa e os projetos não se transformam por si mesmos em encontros. Para lembrar Proust, citado por Dudude no espetáculo, diria com Deleuze que é preciso também perder tempo:  (mais…)

2012
02.16

El Box, de Ricardo Bartís

Há um teatro de estados. Ou, melhor, teatros. E para trazer alguns elementos sobre o tema, selecionei trechos de dois textos. O primeiro é de Eduardo Pavlovsky, dramaturgo, ator, diretor, ensaísta e psicoterapeuta. O segundo é de Jorge Dubatti. São ensaístas argentinos que poderiam estar mais presentes em nossa cultura cênica. E também em nosso aporte teórico do teatro contemporâneo. Os autores abordam um campo de experimentação que não se pauta pela representação. E o fazem utilizando as ferramentas conceituais que buscam desmontar as concepções representacionais. O mesmo digo para os estudos da pesquisadora cubana, radicada no México, Ileana Diéguez, sobre as teatralidades liminares. Ela afirma, por exemplo, que é necessário “problematizar a representação como espaço de diferenças”. Nesse caso, Ileana diz que “a arte atual, particularmente o teatro, deveria considerar as reflexões traçadas pela teoria pós-estruturalista”.

No caso em tela, Eduardo Pavlovsky e Jorge Dubatti utilizam conceitos extraídos da filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Mas não acredite que se trata de uma  adequação de um pensamento criativo a outro. Pois a arte, sim, ela pensa por seus próprios meios, dirá Deleuze.

Os dois textos abordam o “teatro de estados” não de um modo geral, mas sim nos processos de singularização do teatro de Ricardo Bartís. Vamos aos nossos ensaístas:  (mais…)

2011
10.13

 

Territórios em fuga

Um homem se atira, de repente, aos pés de um transeunte no meio da calçada, para  recompor-se rapidamente em seguida. E novamente, a cada avanço do passante, joga-se numa sucessão de estranhas quedas e recuperações. Enquanto isso, da porta de uma loja de roupas, outro homem  se lança para o meio da calçada. O ato de ir ao chão é uma espécie de leitmotiv (motivo condutor) da intervenção urbana Olho da Rua. Outras ações ocorrem, num diálogo com o ambiente e os fluxos que o constituem. São territórios que se formam e logo se põem a fugir. Pequenas narrativas que explodem e se fragmentam. Frestas que se abrem no cotidiano da cidade.

A expressão “olho da rua” tem o sentido dos “olhares da rua”,  das multiplicidades e rizomas e, igualmente, o de “ser atirado na rua”. A pesquisa continua buscando extrair também do cotidiano da cidade as  imagens e sonoridades que possam ser incorporadas. É assim que aparecem outros gestos e posturas, lembrando situações de constrangimento vividos preferencialmente por pobres e negros, quando investigados pela polícia. Outro exemplo vem dos sons vocais produzidos pelos trabalhadores da limpeza urbana, quando correm e seguem aos gritos os caminhões de lixo.   (mais…)