Estelinha by Starlight e o teatro underground mineiro dos anos 70

7, junho, 2010

Uma família suburbana, um porão e um grupo gay

Primeira metade dos anos 70. Fui convidado para assistir a um espetáculo que eu não poderia perder: Estelinha by Starlight. A direção era de Ronaldo Brandão, um crítico de cinema que se dedicava cada vez mais ao teatro. No elenco atuavam Luís Otávio Brandão, seu irmão, Geraldo Bonifácio,  Deusdete e o próprio Ronaldo.

No caminho, Eid Ribeiro, que fizera o convite, preparava-me para o que iria assistir: algo muito distante do teatro até então praticado. O espetáculo acontecia no porão de uma casa, no Bairro de Santa Efigênia, em  Belo Horizonte. Os atores moravam lá, eram gays e a cena trazia vestígios dos embates existenciais e ideológicos dessa opção. Leia mais…

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Todos os tempos ao mesmo tempo: Lisa Nelson e Daniel Lepkoff

20, fevereiro, 2010

Imagem: Pepe Alfonso

Da atenção como diferença

Lisa Nelson (EUA) e Daniel Lepkoff (EUA), dois artistas de dança contemporânea, estiveram em Belo Horizonte, conversaram com outros artistas e interessados, ministraram uma oficina e abriram para o público de convidados uma performance em tempo real, compondo juntamente com os participantes da oficina. A vinda foi um convite de Dudude Hermann, que inaugurou seu novo estúdio nos arredores da cidade, em Casa Branca. Um espaço bem planejado, inserido numa bela paisagem, dedicado aos estudos e pesquisas na área da dança.

A expressão “todos os tempos ao mesmo tempo” é de Lisa Nelson e traduz uma prática-pensamento compartilhada com Daniel Lepkoff: a composição em tempo real. Que ressoa, ainda,  com a filosofia de Bergson: a experiência da duração como sendo a de um presente coetâneo ao seu passado e futuro. E o meu presente, aquilo que recomeça a todo instante, diz Bergson, é a consciência de meu corpo.

Os dois artistas têm em comum, além de outros procedimentos de criação compartilhados, o exercício constante da atenção,  de uma awareness. O termo difere de consciousness, já que este último enfatiza a “consciência”, enquanto o primeiro não limita a este aspecto. Poderíamos traduzir awareness, seguindo o Zen, por “atentividade”. Lisa fala de uma coreografia da atenção (coreografic awareness) para dizer de sua busca, noção que também tem muito a ver com o trabalho de Daniel.

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Composição, Dança Contemporânea, Improvisação, Performance , ,

Teatro das figuras sombrias: Armatrux e Eid Ribeiro

19, dezembro, 2009

armatrux no pirex

Maestria

No Pirex, novo espetáculo do Grupo Armatrux (Belo Horizonte) e Eid Ribeiro (direção), povoa o palco de figuras e sombras, buscando um humor mórbido, num teatro sem falas. Mas o que me chama a atenção, além da competência do Armatrux e da “carpintaria” teatral de Eid (aliás, um termo que andou meio desaparecido), é a questão desses actantes-máscaras, segundo o estudo de Matteo Bonfitto (O ator compositor). E, por conseguinte, como o ator configura esse universo. Interessa, sobretudo, lançar um breve olhar sobre a compreensão do teatro  e do ator sobre a qual Eid Ribeiro trabalha, ao recortar essas figuras e sombras. Leia mais…

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Teatro e nova dramaturgia: uma conversa com o Espanca

20, outubro, 2009
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Amores Surdos. Foto de João Marcos Rosa

Algumas histórias

O grupo Espanca realizou um debate sobre os rumos e linhas de sua atuação (outubro 2009),  quando comemorava cinco anos de criação cênica. A avaliação, da qual tive a honra de fazer parte juntamente com outros convidados, foi uma das últimas ações do Projeto Espanca à Mostra, constando de apresentação da trilogia de Por Elise, Amores Surdos e Congresso Internacional do Medo.

Um ato de generosidade e de coragem, este de se expor a uma avaliação por parte de um público mais próximo, por um vínculo ou outro, às trajetórias dos artistas que compõem o coletivo desde o início de sua formação (Grace Passô, Gustavo Bones e Marcelo Castro). Exponho, aqui, apenas as questões que apresentei nessa conversa com o grupo e convidados. Leia mais…

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Performance e máquina abstrata

26, agosto, 2009
Fotografia de Muybridge (1804-1906)

Fotografia de Muybridge (1804-1906)

Vez por outra estamos às voltas com a definição do que vem a ser uma performance. No  Festival de Performance de Belo Horizonte (1a edição: 2009), o tema foi assunto de discussão. Desde a Manifestação Internacional de Performance (que teve neste ano sua 2a edição), passando pelos diversos eventos e projetos (como a Zona de Ocupação Cultural, o Cabaré Voltaire, a ação Arte Expandida, provocadas pelas forças que se somaram a este que voz escreve), para não falar das inúmeras presenças de artistas e conjuntos que re(in)sistem nesse plano de criação, ocorre uma proliferação de desejos performáticos. O que é Performance hoje? Este, o título do debate (1). Faço a seguir algumas anotações:  Leia mais…

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Intervenção urbana: É proibido deitar

1, agosto, 2009
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Imagem de Teresa Marinho

Proibido deitar: este é o título da intervenção urbana produzida pelo Grupo de Teatro O  Clube,  cujo mote é a expressão homônima inscrita nos bancos do Parque Municipal de Belo Horizonte. O elenco performador tem as presenças de Patrícia Siqueira, Daniel Toledo, Isaias Campara, Regina Ganz e Carolina Rosa. A direção é de Rita Clemente.

Por que chamar este tipo de trabalho de intervenção urbana? Em primeiro lugar, porque difere, pelo menos em princípio, do teatro em espaços abertos e do teatro de rua. Alguns outros nomes  são utilizados para definir as performances que interagem diretamente com os espaços, como site specificenvironmental theater. Cada um desses termos carrega suas conexões, vínculos, percepções, contextos etc. Leia mais…

Intervenção urbana, Teatro pós-dramático e performativo ,

Grotowski e a arte do ator: encontros com Tatiana Motta Lima

4, junho, 2009

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A arte do ator e os caminhos trilhados por Grotowski: assim posso resumir o tema recorrente nos encontros  com Tatiana Motta Lima (atriz, doutora em artes cênicas, professora da Uni-Rio).  Logo no primeiro encontro, quando ela conversava com o grupo de formandos dos alunos e alunas do Curso Técnico de Formação do Ator, da Fundação Clóvis Salgado (Belo Horizonte), dirigidos por Cristiano Peixoto, pude perceber a importância e a singularidade das colocações de Tatiana sobre a arte do ator, inspiradas em Grotowski. E sublinho a sua habilidade  em ouvir o outro e, junto com seus interlocutores, instaurar isso que é uma arte do encontro. Leia mais…

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A impregnância do sentido no teatro: O Cara Preta

28, maio, 2009

O Cara Preta

Imagem de Guto Muniz

O que esperamos de cada ato poético, se não isso: refazer os caminhos do sentido e dos sentidos?  O Cara Preta, espetáculo da Maldita Cia de Investigação Teatral (Belo Horizonte), obra em processo que realiza uma pesquisa de encenação e dramaturgia em interação com a concretude dos espaços, reinventa o teatro ao fazer teatro. Não falo de um teatro-modelo.  E não há nenhum exagero nessa afirmação. Cada obra é singular no modo como resolve o embate das forças que atuam sobre ela.

Há uma impregnação do sentido em O Cara Preta. Sim, o sentido no lugar da significação. Essa impregnância ocorre em todos os elementos da encenação.  O que é isso? Leia mais…

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Estudos de composição cênica e corporal: uma abordagem

3, abril, 2009
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Robert Morris and Carolee Schneemann performing Site at Stage 73, Surplus Dance Theater, New York, 1964. Photo by Peter Moore.

Composição X Interpretação

Chamo de estudos compositivos a pesquisa em criação cênica e corporal na qual a ênfase recai sobre o caráter de exercício e experimentação. É necessário conceber tal plano, no qual cada fase do ato criativo possui autonomia suficiente, de modo que criadores e público possam interagir numa espécie de “ensaio” infinito, ou working in progress.

Na cena contemporânea são muitos os procedimentos que se desenvolvem como estudos de composição,  um termo oriundo da música. O plano compositivo vem substituir a noção de interpretação teatral, que supõe uma obra já realizada anteriormente (o texto dramático) e para a qual caberia o trabalho de um intérprete, normalmente guiado por um diretor. Leia mais…

Composição, Dança Contemporânea, Improvisação , , ,

O teatro de Tadeusz Kantor (1)

22, fevereiro, 2009

A realidade do nível mais baixo

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Origem: http://www.zwoje-scrolls.com/zwoje20/text12p.htm

Tadeusz Kantor, um artista de happenings, esculturas, desenhos, imagens e teatro,   publicou inúmeros manifestos poéticos que se tornaram, por sua vez, outras criações. Não são espelhamentos ou identidades entre textos e performances,  mas um jogo de afecções mútuas.  Tomemos uma definição do próprio Kantor para  seu teatro: a realidade do nível mais baixo. Uma expressão emblemática de sua arte, que pode ser melhor compreendida a partir de três questões de fundo:

a) a crítica da ilusão teatral (e do teatro-representação);

b) a arte moderna, a abstração e o desaparecimento do objeto e da figura humana;

c) a crítica de Gordon Graig, um dos renovadores do teatro, que considerava inferior a arte do ator vigente na sua época,  por  estar presa à emotividade. Diferente de outras artes (música, artes plásticas) ,  a matéria  da interpretação teatral consistiria na própria existência pessoal do artista, sujeita ao movimento das paixões  e, portanto, sem as definições ascendentes da beleza que se igualaria à precisão.  Na sua visão, o ator deveria ser uma supermarionete.

Kantor responderá a esse contexto justamente com a realidade do nível mais baixo. Vejamos: Leia mais…

Teatro pós-dramático e performativo ,