Outro em Si e Memória Silenciosa

Foto: Andre Semenza

Faço algumas anotações sobre o espetáculo Outro em si, da Cia Sesc de Dança (Belo Horizonte, 2017), que foi dirigido por Fernanda Lippi e André Semenza, ambos do Zikzira Teatro Físico, (BH/Londres). Sendo que Fernanda Lippi assina ainda a concepção e coreografia e André a trilha sonora, que se inspiraram no livro Estrangeiros para nós mesmos, de Julia Kristeva. Deste trabalho resultou o filme de média metragem, Memória silenciosa, dirigido pelos dois artistas.

Um primeiro aspecto que me chama a atenção, refere-se à linha de leitmotiv (motivo que retorna) que me parece ser estruturante do processo coreográfico-temático de Fernanda Lippi: a paisagem desterrada, os seres que buscam incessantemente e quase inutilmente respirar numa atmosfera sufocante e, por fim, um amor para sempre perdido. E de um ponto de vista mais técnico, incluiria ainda a via dos impulsos corporais. André Semenza, como codiretor, cineasta e desenhista de sonoridades, joga com esse universo de obsessões com o qual partilha. Continue lendo “Outro em Si e Memória Silenciosa”

De carne e concreto: uma instalação coreográfica

Imagem: acervo da Anti Status Quo Companhia de Dança

 

De carne e concreto uma instalação coreográfica, da Cia Anti-Status Quo, de Luciana Lara, de Brasília – no Festival do Teatro Brasileiro (apresentações realizadas em Belo Horizonte, 07 e 08 de Agosto de 2017).  Uma cena que é do acontecimento dos corpos desmedidos, numa paisagem que virou lixo. Um trabalho em que a experimentação é pautada e levada adiante. Em que o espaço dos espectadores e dos artistas não tem separação, onde se os corpos se entreolham, se misturam e interagem nos diversos momentos.  Continue lendo “De carne e concreto: uma instalação coreográfica”

Vaga carne, de Grace Passô

Imagem: divulgação

 

As luzes se apagam e escutamos, no escuro, a gravação da voz de uma mulher. Começa a cena de Vaga Carne, com Grace Passô. Que logo aparecerá sob um foco de luz no rosto, com ela de óculos escuros. Depois veremos uma bateria musical ao lado, num palco praticamente nu, apenas com as rotundas em volta. A plateia é configurada na forma de esporão, com a relação frontal, uma à esquerda e o outra à direita. Estamos bem próximos da atriz, aliás, dentro do palco do teatro à italiana.

A voz fala de um ser que descreve as coisas e das coisas e outros seres que invade, transita e habita por um tempo. Quem invade? Seria um vírus? Um algo sem nome. Um efeito da linguagem – o inominável, para lembrar Beckett. que vai nomeando as sensações, passando de uma para outra numa velocidade entre o demorar-se um pouco e o saltar logo  adiante. De operar cortes e de dobrar/desdobrar mundos internos, superfícies e percepções de estados de coisas.

Logo em seguida, esse inominável da linguagem irá invadir e descrever a carne de uma mulher. Daí para diante seguiremos juntos, artista, espectadores e mundos visitados, arrastados por  uma sinfonia agônica e minimalista de voz e corpo, por quase 50 minutos. Um tempo que não vemos passar.  Digo que é um dos trabalhos mais instigantes de Grace Passô – em que vejo uma travessia. Dele falo em três lances breves: o do dispositivo cênico, o da técnica/poética ao modo de uma travessia e o do acontecimento e sua política.

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Teatro da representação e teatro da repetição, por Deleuze

Cena da peça “Artists should Croak”, de Tadeusz Kantor. Premiere em Junho de 1985 – Nuremberg

“Kierkegaard e Nietzsche estão entre os que trazem à Filosofia novos meios de expressão. A propósito deles, fala-se de bom grado em ultrapassagem da Filosofia. Ora, o que está em questão em toda a sua obra é o movimento. O que eles criticam em Hegel é a permanência no falso movimento, no movimento lógico abstrato, isto é, na ‘mediação’. Eles querem colocar a metafísica em movimento, em atividade, querem fazê-la passar ao ato e aos atos imediatos. Não lhes basta, pois, propor uma nova representação do movimento; a representação já é mediação.” Continue lendo “Teatro da representação e teatro da repetição, por Deleuze”

Migrações de Tennessee

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Imagem: Guto Muniz

Migrações de Tennessee é um tributo de Eid Ribeiro ao grande dramaturgo que escreveu, entre outras peças, Um Bonde Chamado Desejo e À Margem da Vida.

Ele expõe na personagem de Tennessee Willians em cena (Cristiano Peixoto), um pouco da história e dos motivos que são recorrentes ao autor. Porém, mais do que isso, Eid Ribeiro mostra também os traços que marcam sua trajetória de encenador – e também de dramaturgo que é. Mesmo que não sejam tão evidentes, pois que entrelaçados estão a outros intercessores e influências.

Os detalhes na construção dos seres ficcionais são de uma preciosidade ímpar. Quase um minimalismo dramático – por onde as personas escapam pelas frestas, a serem apanhadas logo em seguida no patético do acontecimento (o convidado para o jantar, quando acovardado, se revela num átimo, batendo o pente na parede e quase olhando para trás).

Eid Ribeiro entretece o seu fazer, nas dobras do acontecimento, através do que ele sempre chamou de nuances – que nós entendemos por detalhes. Que a arte é detalhe dentro de detalhe. Nuance de nuances. Continue lendo “Migrações de Tennessee”

Danças do Abismo

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Imagem que faz parte do vídeo exibido (Marcelo Gabriel/Arthur B. Senra).

Assistir a uma cena de Marcelo Gabriel é sempre uma experiência singular – quase um privilégio. Primeiramente porque o artista somente se apresenta uma vez ao ano na própria cidade em que reside, Belo Horizonte (MG). Depois – e o mais importante – porque estamos diante e junto de uma poética do corpo que vem, ao longo dos anos, adentrando nos próprios abismos.

O título Danças do Abismo 2, então, não poderia ser melhor para expressar o que se seguirá. Aqui nos deparamos com um trabalho despojado, tanto em relação ao figurino, quanto à cenografia, no qual Marcelo Gabriel experimenta o limiar que perpassa morte e loucura.  Continue lendo “Danças do Abismo”

Domingo, com Cida Falabella

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Imagem: Jornal O Tempo.

Domingo, de Cida Falabella, ocorre na casa da atriz/performadora, no Bairro Serrano, em Belo Horizonte.  Porém, pelo menos para mim, a experiência já havia se iniciado antes.  Pois uma coisa é deslocar-se em direção a um espaço destinado às artes, outra é ir ao espaço encontrado. No caso, aquele em que uma pessoa habita. Principalmente porque a casa – a morada – não foi esvaziada da ocupação cotidiana, e então transformada pela ocupação artística. Pelas informações anteriores, sabia que adentraria no espaço real de uma vida. Mas o que isso significa?

A cena se inicia com os convidados – pois esse tipo de cena é antes de tudo um convite – dispostos no jardim e quintal da casa, quando a atriz/performadora está de pé, próxima à parede do fundo, num gesto de entrega.  E ali, daquele lugar, vocalizando um texto poético e introdutório, ela abre o encontro.  Continue lendo “Domingo, com Cida Falabella”

A cena site-specific: uma definição por Mike Pearson e McLucas

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Brith Gof : Haearn – Imagem: .http://www.culturecolony.com/artlogs?p=2690

 

Mike Pearson é um artista e pesquisador de teatro físico e performance site-specific, autor de vários livros sobre o tema. Entre outras parcerias, fundou com Lis Hughes a Brith Golf em Aberystwyt (Reino Unido), em 1981 e que durou até 1997. Ele desenvolveu pesquisas com Michael Shanks sobre teatro e arqueologia, e com o teórico e artista visual, Cliff McLucas. A companhia trabalhava com criações híbridas, envolvendo música, cenografia, texto e ação física. Eles se concentravam especialmente em espaços encontrados, fora dos circuitos tradicionais de exibição artística. Continue lendo “A cena site-specific: uma definição por Mike Pearson e McLucas”

A poética corporal de Rasante

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Imagem: Guto Muniz: http://www.focoincena.com.br/

(ra.san.te)

1. Que passa muito próximo do solo.

2. Diz-se de fortificação cujos muros são baixos.

3. Diz-se de tiro disparado mais ou menos rente ao solo.

4. Voo rasante (1).

[F.: rasar + -nte.]

Dicionário Aulete

 

Rasante me traz sensações e, ao mesmo tempo, elementos fecundos para a pesquisa de linguagem – de um teatro de imagens produzidas pelos corpos, de uma dança intensiva e da constituição de atmosferas. Tem a direção do ator, bailarino e coreógrafo Sérgio Penna e a participação dele e dos atores-bailarinos-criadores Gabriella Christófaro, Bernardo Gondim, Lourenço Marques e Grace Passô.

A cena é classificada como dança. Tudo bem, isso serve para os editais, para os projetos de circulação etc. Na verdade, é inclassificável, como afinal toda arte que pode produzir afecções em você. E que por sua beleza – sim, o belo como força de deslocamento – também vai muito além dos gêneros artísticos. Tem uma poiesis do corpo – e dos meios que o atravessam e o tangenciam. São bailarinos-atores ou atores-bailarinos – tanto faz: cabe aqui essa descrição de Eugênio Barba. Continue lendo “A poética corporal de Rasante”

Performance e liminaridade: conversa com Marcelle Louzada

Uma boa conversa com Marcelle Louzada, acompanhada do músico Philipe Lobo. Marcelle agora mora em Fortaleza, onde estuda, prepara-se para o doutorado e trabalha com dança e performance.  Falamos de nossos projetos, estudos etc. Entretanto, predominou o assunto sobre os espaços das cidades, o corpo, o confronto com os padrões de comportamento e os modos de produzir significados, a estética e o real.

Marcelle contou-me que ela já havia realizado muitas sessões de dança, composição e improvisação em espaços públicos. Mas que não sentia força, sentido de apropriação, diálogo com a cidade. Não que trabalhar com movimento e criação ao vivo, em ambientes abertos, não fosse interessante. Mas ela sentia falta de algo. Só foi encontrar quando passou a condensar, posso dizer assim, uma corporeidade questionadora, capaz de produzir atritos, choques, rupturas. No dia Internacional da Luta da Não Violência Contra a Mulher, 25 de novembro, quando mulheres do mundo se encontram para discutir questões do gênero feminino, cultura e políticas públicas, segundo Marcelle, ela faz uma performance urbana bem agressiva:

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